domingo, 27 de março de 2011

"Mozambique", Bob Dylan



"Lying next to her by the ocean
Reaching out and touching her hand,
Whispering your secret emotion
Magic in a magical land."

O fabuloso Senhor Morte

"E que longo e estranho caminho percorri, penso. Um longo e estranho caminho. Mas todos nós estamos fadados a um dia sucumbir, sumir aos poucos diante dos olhos dos amados e dos odiados. Tudo um dia acaba e até a felicidade se esvai. Não existe dor maior que a dor do ser, e essa todos sentimos, dia-a-dia, de baixo de nossa pele. Como pode, então, acreditarmos tanto nesse mundo de fantasias que criamos? Como podemos nós sermos tão egoístas e mesquinhos a ponto de imaginar que o mundo é perfeito como deveria ser? E como podemos então forçar esse mundo fantasiado ao mundo dos demais? Estamos sozinhos. E a cidade inteira está pegando fogo lá fora. E as pessoas gritam e falam e choram e matam e são mortas e beijam e fodem e bebem e se drogam. Nada importa tanto assim. E no final, não existe Deus pra tomar conta de nossos atos, pra ganhar crédito por nosso esforço e subitamente desaparecer de nossas vidas quando tudo começa a dar errado. E no final os poetas nada escrevem, só param e se deixam ser levados. E lá fora o mundo continua, com ou sem mim. No final nem o amor nos salvará. E ainda as pessoas não sabem o que é a realidade e o que é a fantasia, e suas mentes poderosas criam qualquer mundo narcisista e doente que elas querem que seja criado. E as ambulâncias continuam a gritar suas sirenes brilhantes, atravessando a noite em busca dos injuriados e dos finais, as crianças continuam a passar fome em algum lugar enquanto nós gordos e magníficos nos enchemos de cerveja e frango todos os domingos, e por aí e quem sabe nesse exato momento a vida inteira de uma criança é destruída pelos desejos doentes de um adulto doente, e os pais continuam a brigar e a beber como se o amanhã não fosse mais chegar. E ninguém ouve os gritos dos rejeitados e dos mal amados. E ninguém quer saber de ninguém, nem eu, no chão, sedento por um final breve e indolor. Tudo o que penso é em mim e nos meus mais ridículos motivos."

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