quarta-feira, 16 de novembro de 2011

O homem de chapéu social preto

O homem de chapéu social preto dirigia pelas ruas chuvosas naquela noite de verão. A cidade parecia menos suja que no restante dos dias, como se a chuva pudesse limpar a cidade. Não da sujeira que o ser humano produz, como o lixo, mas do ser humano em si, em forma de lixo. Era assim que o homem de chapéu social preto via o resto do mundo. Não que ele se achasse melhor ou pior que alguém, nem tão diferente, ele só não gostava de ninguém, nem de si mesmo. Sabia que as pessoas eram escrotas e, por ser uma pessoa, pensava isso de si mesmo. Mas enquanto olhava para os comércios fechados e os cruzamentos desertos, ele pensava nela. Não entendia como poderia amar cultivando tanto ódio dentro de si, não entendia como poderia ao menos ser digno de algo tão gracioso e grandioso, mas reconhecia que essa era sua realidade. Parou o carro velho e barulhento perto de um estabelecimento que se mantinha fortemente aberto naquele feriado chuvoso. As pessoas haviam viajado. Parecia que ninguém estava na cidade. Reconheceu que o estabelecimento era um pequeno bar, mais sujo que o interior de seu carro. Sentou-se no balcão e não falou nada. O homem que estava do outro lado do balcão assistindo a televisão se levantou e foi em sua direção.

- O que vai ser hoje, campeão?

- Campeão?

- É só uma expressão, sabe, um jeito de se chamar quem não se conhece.

- Não entendo o motivo de apelidarmos quem não conhecemos. Não pode simplesmente perguntar meu nome?

- Ok, e qual é o seu nome?

- Eu não vou falar meu nome.

- Então o que vai ser, campeão?

O homem de chapéu social preto olhou profundamente nos olhos do homem que tentava servi-lo. E por alguns segundos o homem sentiu como se a eternidade tivesse tomado conta da ilusão que ele conhecia como tempo. É nessas horas que você duvida de tudo o que lhe parece óbvio.

- Um copo d’água por enquanto, campeão.

O copo cheio de água da torneira foi colocado, então, sobre o balcão.

- Você vai querer que eu consuma algo pra poder ficar aqui, não?

- Não. Veja, todos foram viajar por causa do feriado, inclusive minha família. Estou sozinho, posso aproveitar um pouco de companhia.

- E por qual motivo você não foi viajar com sua família?

- Preciso pagar o aluguel.

- E eu preciso pagar o imposto dessa lata velha.

- Eu deveria ter ido, sabe. Hoje eu fiz míseros vinte reais, vendendo doses de pinga barata pros trabalhadores que precisaram ficar na cidade. Eles ganham menos que eu.

- Todos ganham menos que todos.

- Não é bem assim, algumas pessoas são mais bem sucedidas que outras.

- Ser bem sucedido não significa necessariamente ganhar.

- E o que seria ganhar pra você?

- Talvez apagar minha memória.

- Algo te incomoda, campeão?

- Esse chapéu me incomoda.

E assim, o homem de chapéu social preto se tornou apenas o homem. O homem no balcão de um bar tomando água da torneira por não ter dinheiro pra tomar qualquer outra coisa. Viu-se pensando nela, novamente, e não entendia por que ela não podia simplesmente sumir.

- Me desculpe, campeão, mas não vou poder ser sua companhia pra essa noite. Tenho lugares pra estar.

- Tudo bem, eu vou ficar bem. Tenho minha televisão.

O homem saiu para a rua sem dizer mais nenhuma palavra. Entrou em seu carro velho e sumiu na noite chuvosa. A chuva piorara, as gotas caíam com uma força nunca vista antes pelo homem atrás do balcão. Reluziam a luz da solidão.

sábado, 25 de junho de 2011

Copos de cerveja e acordes com sétima


Já estavam naquele quarto sujo de hotel de beira de estrada há mais ou menos três horas e nenhum dos dois tinha criado a coragem de se sentar na cama. Disputavam o pouco de cerveja que restava. O boteco da frente já havia fechado. E mesmo que estivesse aberto, não sobrava dinheiro pra mais. Sofie sentava numa ponta da mesa com um violão no colo e um cigarro aceso na boca. Saul tomava seu copo de cerveja, tranquilamente, enquanto assistia. Algum blues era arriscado nas cordas vibrantes do violão. Uma voz mal tratada por quarenta anos de tabaco e álcool arriscava junto uns versos de gente com história e dores que nenhum dos dois podia aguentar, nem o próprio que as sofrera, nem a que ainda não tem história o suficiente pra ter sofrido metade.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Quebrando Josué

De longe ele viu o homem agachado num canto qualquer da calçada, entre uma cafeteria e um restaurante de fast-food, com as calças arriadas e uma expressão de desconforto no rosto. Parou por um instante e teve nojo de se aproximar. Atravessou para o outro lado da rua e continuou a caminhar. O relógio marcava algumas horas da madrugada. Ele retirou de dentro do casaco um recipiente de metal para armazenar bebidas alcoólicas e deu duas fortes goladas, seguidas do acendimento de um cigarro. Parou por mais um momento e pensou novamente no caminho a ser tomado. Atravessou a rua de volta para o lado do homem agachado e começou a ir em sua direção. Parou em frente ao homem e alinhou seu rosto com o dele.

- Você não pode cagar aqui.

- Quem disse que não? Isso aqui é público.

- Por isso mesmo você não pode cagar aí.

- Mas se é público, eu posso fazer o que eu quiser com ele, me pertence, pois eu sou o público.

- Eu também sou o público e eu digo que você não pode cagar aí.

- Foda-se!

Então ele chutou um dos joelhos do homem agachado, que agora se tornara homem deitado – deitado em sua própria merda. Continuou caminhando pelo mesmo lado da rua enquanto, no fundo, o homem deitado gritava palavras que sua mãe o dizia pra nunca usar. Tomou mais um gole e deu mais umas tragadas no cigarro. Passou pela frente de uma loja que estava sendo assaltada, um bar onde ocorria uma briga com facas e uns barracos onde adolescentes vendiam drogas e finalmente encontrou a porta de seu prédio. Um prédio quase abandonado há anos pelo proprietário, que só ia até lá para receber o aluguel barato dos inquilinos mais escrotos de toda a cidade. Eram como baratas. Alguns deles rastejavam pelos corredores atrás de uma seringa, um cachimbo, uma nota de real ou qualquer coisa que servisse como canudo.

Abriu a porta de seu apartamento, sentou-se na mesa em frente à janela, serviu-se de mais um gole daquela bebida e umas tragadas no cigarro. Colocou o cigarro no cinzeiro já cheio. O cigarro fez acender uma bituca do dia anterior. O passado até que pode ser revisitado, pensou.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Mentiras

- Como vai o cuzinho, amor?

Já tava perto de amanhecer e eu não tinha o direito de chamá-la de amor. Mas desde o começo da noite anterior ela assim me chamou, então resolvi retribuir o favor. Percebi a falsidade irritante em seu olhar e em suas palavras já nos primeiros minutos de conversa, num sofá ao lado de um cano de aço que se prendia do chão ao teto. Uma música de festa tocava em um volume alto e incômodo do outro lado do salão. Ela não era assim tão bonita. Eu não era assim tão humano.

- Arde um pouco, amor, arde um pouco. Acho que vou tomar um banho.

E foi. Entrou no banheiro e deixou a porta meio aberta. Talvez quisesse minha presença debaixo daquela água quentinha que quebrava as piores dores do inverno, mas meu corpo já havia desistido há tempos. Eu não tinha forças nem pra acender o cigarro que, em minha boca, esperava ansiosamente cumprir o sentido de sua existência. Enquanto eu a esperava sair do banheiro, fitava o canto das paredes daquele quarto de motel. Eram brancas como a neve que nunca vi. Em poucos minutos ela saiu do banheiro e se deitou ao meu lado.

- Sabe, amorzinho, você é tão bonito. Queria que você fosse meu namorado.

Eu sabia que as palavras que saíam de sua boca eram direcionadas à meu dinheiro, mas algo me fazia pensar o contrário. Não sei se eram os raios de luz que o sol lançava por entre as cortinas, aquecendo nossas sofridas pernas geladas, a noite de sexo intenso e juras passageiras de amor ou a obviedade de seu sofrimento.

- Você não fala muito, né? Queria que você falasse mais.

Ela queria demais. Talvez fosse esse o grande problema de sua vida. Talvez por isso ela tinha que trepar com tanto estranho por aí. Talvez. De longe se percebia que ela vendia uma imagem falsa de si mesma, desesperadamente tentando esconder do mundo sua fraqueza e sofrimento, escondendo-se atrás de garrafas de rum barato, juras falsas, lágrimas reais e cocaína de má qualidade, esperando sempre um anjo sem asas que lhe curasse as feridas.

Os raios de sol já cobriam metade da cama e o rádio estava desligado. Abraçamo-nos embaixo das cobertas, ela completamente nua e cheirosa e eu de cuecas e fedido, e naquele momento o amor não podia ser descrito nem desafiado – ele existia e estava sendo praticado. Fica fácil perceber o que é amor depois de passar tantos anos sendo parceiro único do ódio.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

O pão nosso de cada dia

- Thank you! Isso significa “obrigado”, certo?

- Certo.

- Eu já sabia.

- Então por que perguntou?

- Pra ter certeza.

- Mas você já não tinha certeza?

- Acho que sim.

- Tudo bem, deixemos isso pra lá.

- Toma mais uma.

- Sim, tomo mais uma.

Enquanto virava mais uma dose de conhaque, Lui tentava se lembrar da última vez que foi abordado por um estranho tão irritante num bar tão fedido. O odor de uma privada entupida no banheiro se misturava com todo o excremento que vinha dos esgotos e se depositava no córrego que dividia a rua de frente para o bar, fazendo uma dança perigosa para o olfato de qualquer ser humano que pudesse sentir seu próprio cheiro. O bêbado desconhecido já mostrava sinais de estar perdendo um pouco a consciência – entrando naquela fase bêbada que poucos conseguem ultrapassar –, afogando-se em contradições intermináveis sobre Deus e seu melhor amigo, o diabo com letra minúscula – pois assim falava o bêbado –, tropeçando em seus próprios pés enquanto saía do local pra poder fumar.

- Essa tal nova lei aí que proíbe os bêbados de fumar dentro dos bares é um insulto! Ouviram? Um insulto...

Lui estava concentrado no balcão. Olhava para as falhas que faziam parte de toda obra, de toda arte, de toda vida. Por alguns instantes, não mais ouvia o bêbado irritante, mas logo seus ouvidos pararam de ouvir as palavras que saíam de dentro pra ouvir as de fora. Ele realmente não controlava assim tão bem o que queria ou não ouvir.

-... E digo mais! Os almofadinhas lá do senado deveriam é tudo ir tomar no cu, não tenho paciência pra esse bando de filho da puta...

O dono do bar olhava para Lui e sorria discretamente. Talvez quisesse mostrar ao seu cliente que aquele outro o entretinha. Lui não sorriu de volta. O dono do bar deixou que o sorriso morresse em questão de segundos e demonstrou-se completamente inconfortável com a situação. O bêbado terminou seu cigarro e foi em direção de Lui.

- Qual é o seu problema?

- Como?

- Quero saber qual é o seu problema.

- Não tenho problemas.

- Todos nós temos problemas.

- Você é um daqueles bêbados filósofos?

- Não.

- Até agora falava só asneira, tenho medo que continue a falar.

- Ora, não estamos aqui pra insultar uns aos outros, estamos?

- Acho que não.

- Então seja menos hostil.

- Tudo bem.

- Qual é o seu problema?

- Acho que é o passado.

- Tem um passado negro, é?

- Não, o contrário. Tenho um maravilhoso. Esse é o problema.

- Não entendo.

- Não consigo me desconectar dele. Vivo minha vida revivendo cada segundo de meu maravilhoso passado em minha mente.

- Existe uma palavra pra gente assim.

- Nostálgico?

- Não sei.

- Talvez seja isso. Nunca soube o significado exato dessa palavra. Sei que tem alguma coisa a ver com o passado.

- Ok, Senhor Nelstágico, vamos tomar mais uma.

- NOStálgico.

- Sim, Nelstágico. Fale-me mais de sua vida.

- Não entendo o motivo de tanto interesse. Não tenho uma vida tão interessante assim.

- Não tenho nada pra fazer e ninguém pra conversar.

- Somos dois.

- Temos um ao outro, então.

- Sim.

- Então fale mais de sua vida.

Lui já não aguentava mais tanto incômodo. Entre as frases, tentava respirar pela boca para evitar aquele odor horrível que agora se misturara com o cheiro de álcool que vinha da boca do bêbado. O rádio tocava alguma música regional dum lugar de onde Lui não tinha vindo. Isso o irritava. Ter que compartilhar com os cidadãos daquela cidadezinha todos os costumes de suas terras natais. Gostaria que tudo fosse mais simples, mais universal.

- Ainda to esperando você falar da sua vida.

- Oh, sim, perdoe-me, não tenho nada pra falar de minha vida.

- Claro que tem!

- Não. Nada de interessante. Nada que valha a pena ser dito.

- Tudo vale a pena ser dito.

- Nem tudo.

- Tudo! Ficar com algo te atormentando a cabeça é pior que dizer e lidar com a rejeição.

- Você parou de falar asneiras.

- Sou um bêbado de classe.

- Falou como um de meus mestres.

- Que?

- Charl...

O dono do bar o interrompeu com mais uma dose de conhaque para Lui e uma de cachaça para o bêbado irritante. Lá fora alguém pisava na folhagem seca que o outono tirou das árvores mais belas, provocando um calmo e aconchegante som, que lembrava Lui de sua distante infância, uma felicidade que nunca na vida sentira igual, um amor que nunca na vida tinham lhe dado igual. E ele continuava no bar, sentado, tomando seu conhaque e conversando com um bêbado irritante. Talvez a vida fosse simples assim, talvez não precisasse Lui complicar tudo pra encontrar sentido no insensato, história no papel em branco, amor nos braços estranhos de outro alguém. Ou talvez ele fosse, simplesmente, nada ambicioso. Afinal, sabia ele que ser ou não campeão de vida não cabe ao que melhor ataca, mas ao que melhor aguenta.

Cartas para Kerouac (de Mardou)

AMOR,

Como é bom saber que o inverno está
chegando –

porque a gente vivia reclamando do calor e agora o calor estava acabando, vinha um frescor no ar, dava para sentir na correnteza cinzenta da Heavenly Lane e na aparência do céu e noites com um tremeluzir mais forte nos postes de luz –

– e que a vida vai ser um pouco mais tranqüila –
e você vai ficar em casa escrevendo e comendo bem
e nós vamos passar noites agradáveis abraçadinhos
– e você está em casa agora, descansando e comendo
bem porque você não devia ficar muito triste –

escrita depois que, uma noite, no Mask com ela e o recém-chegado meu futuro inimigo Yuri meu ex-irmãozinho eu falei de repente “sinto uma tristeza impossível como se eu fosse morrer, o que que a gente faz?” e Yuri sugeriu “Liga pro Sam”, o que, na minha tristeza, eu fiz, e com tanta sinceridade, porque senão ele não ia prestar atenção em mim sendo ele jornalista e o filho dele acabara de nascer e não tinha tempo para bobagens, mas tanta sinceridade que ele nos aceitou, os três, que fôssemos imediatamente, dali do Mask, para seu apartamento em Russian Hill, onde fomos, eu cada vez mais bêbado, Sam como sempre me dando socos e dizendo “Teu problema, Percepied”, e “Você tem uns sacos podres no fundo do teu depósito”, e “No fundo vocês, canadenses de fala francesa, são todos iguais e eu nem acredito que você vai admitir que morreu quando morrer” – Mardou olhando para ele, achando graça, bebendo um pouco, Sam finalmente, como sempre, caindo de porre, mas não exatamente, desejando o porre, em cima de uma mesinha baixa completamente coberta de cinzeiros transbordantes e copos e cacarecos, plof, a mulher dele, com bebê saído do berço, suspirando – Yuri, que não bebias só olhava de olhos brilhantes, depois de ter me dito no dia em que chegou, “Sabe Percepied eu realmente gosto de você agora, eu estou realmente a fim de me comunicar com você agora”, o que devia ter me botado desconfiado de que nele aquilo era um novo interesse sinistro nas minhas atividades, a saber, Mardou –

– porque você não devia ficar muito triste

foi o único comentário doce que a frágil Mardou fez sobre aquela noite terrível desastrosa – semelhante ao exemplo nº 2, depois do lance de Lavalina, a noite do lindo rapaz fauno que havia dormido com Micky dois anos antes num glorioso festanal que eu mesmo tinha organizado quando vivia com Micky a grande musa da noite lendária louca, vendo-o no Mask, e estando com Frank Carmody e todo mundo, puxando a camisa dele, insistindo para que ele fosse conosco para outros bares, atrás da gente, Mardou finalmente na noite embaçada ensurdecedora berrando comigo “Ou eu ou ele porra”, mas não a sério no fundo (ela que normalmente não bebia já que era uma subterrânea mas agora por causa da transa com Percepied bebendo muito) – ela foi embora, ouvi-a dizer “Terminamos” mas nem por um segundo acreditei, como de fato ela voltou depois, nos abraçamos e cambaleamos juntos, mais uma vez eu tinha me comportado mal e mais uma vez ridiculamente que nem um veado, o que me preocupava de novo ao acordar no cinzento da Heavenly Lane na manhã ao rugir da cerveja. – Isto é a confissão de um homem que não sabe beber. – E a carta dela dizendo:

porque você não devia ficar muito triste – e eu me
sinto melhor quando você está bem –

perdoando, esquecendo todas essas loucuras patéticas quando ela quer, “Não quero viver saindo para beber e tomando porre com todos os teus amigos e indo sempre ao Dante’s e encontrar com os Juliens todos e todo mundo de novo, quero que a gente fique em casa quietinhos, ouvindo rádio e lendo ou sei lá, ou então assistir a um show, eu adoro ir a show amor, pegar um cinema na Market Street, ah como eu gosto.” – “Mas eu detesto cinema, a vida é mais interessante!” (mais um comentário arrasante) – sua doce carta continuando:

Estou sentindo tantas sensações estranhas,
revivendo e reformulando muitas coisas velhas

– quando ela tinha catorze ou treze anos por aí ela matava aula fugia de Oakland e pegava a barca para São Francisco ia para a Market Street e passava o dia todo dentro do cinema, andando de um lado para outro tendo fantasias alucinatórias, olhando para todos aqueles olhos, a pretinha perambulando pela rua inquieta incessante de bêbados, marginais, policiais, jornaleiros, a confusão louca a multidão encarando olhando tudo multidão de tarados e tudo aquilo na chuva cinzenta dos dias de aula matada – pobre Mardou – “Eu tinha as fantasias sexuais mais estranhas não com atos sexuais com pessoas mas situações estranhas que eu passava o dia inteiro elaborando enquanto eu andava, e os orgasmos os poucos que eu tinha pintavam sem mais nem menos, porque eu nunca me masturbei nem sabia como, quando eu sonhava que papai ou alguém estava me abandonando, fugindo de mim, eu acordava com umas convulsões estranhas, molhada, nas coxas, e na Market Street eu era a mesma coisa só que diferente e pesadelos tirados dos filmes que eu via.” – Eu pensando Ó Américalouca de telacinzenta gângster coquetel diadechuva tiro bum imortalidade espectral de filme B pilha de pneus escuro-na-névoa mas que mundo maluco! – “Amor” (em voz alta) “quem dera te ver andando assim pela Market – mas garanto que eu te vi sim – você tinha treze anos e eu 22 – 1944, sim garanto que te vi, eu era marinheiro, eu estava sempre por lá, eu conhecia as turminhas daqueles bares –“ Assim ela dizendo na carta:

revivendo e reformulando muitas coisas velhas

provavelmente revivendo aqueles tempos aquelas fantasias, e antes os horrores grotescos da casa em Oakland onde a tia histericamente batia nela ou histericamente tentava e as irmãs (apesar das eventuais carícias de irmãzinha como beijinhos de praxe antes de ir deitar e escrever uma nas costas da outra) fazendo gato-sapato dela, e as caminhadas sem rumo pelas ruas tarde da noite, imersa em meditações macambúzias, os homens escuros de portas escuras de bairros de negros – e assim continuando,

e sentindo o frio e a tranqüilidade mesmo no meio
de meus medos e presságios – que as noites limpas
acalmam e tornam mais nítidos e reais – palpáveis
e fáceis de enfrentar

– dizendo isso com um ritmo bonito também, e aí eu lembrava de admirar a inteligência dela – mas ao mesmo tempo escurecendo em casa lá na minha escrivaninha de bem-estar e pensando. “Mas enfrentar, esses velhos papos psicanalíticos de enfrentar, ela fala como todos eles, os intelectuais urbanos decadentes beco-sem-saída em análise de causa-e-efeito e solução de pretensos problemas em vez da imensa ALEGRIA de ser e vontade e coragem – fissurados em fossa – esse é o problema dela, ela é igualzinha a Adam, e Julien, e todos eles, com medo da loucura, o medo da loucura atormenta a vida dela – mas Eu Não Eu Não meu Deus” –

Mas por que eu estou escrevendo para dizer essas
coisas a você. Mas todos os sentimentos são verdadeiros
e você provavelmente capta ou sente também
o que estou dizendo e por que eu preciso escrever
isso tudo –

– um sentimento de mistério e encantamento – mas, como eu dizia a ela sempre, falta o detalhe, os detalhes são a vida, eu insisto, diz tudo que passa na tua cabeça, não segura nada, não analisa nem nada ao mesmo tempo, é só dizer, “Isso” (digo agora ao ler a carta) “é um exemplo típico – mas deixa pra lá, afinal ela é mulher né –“

A imagem que eu tenho de você agora é estranha

– vejo o ramo dessa frase balançando na árvore –

Sinto uma distância de você que talvez você sinta
também que me dá uma imagem de você que é
doce e amiga

e aí acrescenta, com letra menor,

(e amorosa)

para obviar minha depressão provavelmente por receber carta de amante só com palavra “amiga” – mas todo esse trecho tornado ainda mais complicado por aparecer embaixo de emendas, sendo a versão corrigida, que naturalmente é menos interessante para mim, a seguinte:

Sinto uma distância de você que talvez você sinta
também com imagens de você que são doces e amigas
(e amorosas)
– e por causa das ansiedades que sentimos mas
nunca mencionamos, e que também são parecidas –

o que me faz de repente por obra e graça da força da palavra dela sentir pena de mim mesmo, me vendo a mim mesmo como ela perdido no mar ignorante sofrido da vida humana me sentindo distante dela que devia estar tão próxima de mim e sem saber (não não mesmo) por que a distância é que é o sentimento, nós dois entrelaçados e perdidos nisso, como se submersos no mar –

vou dormir para sonhar, para acordar

– lembrando nossa história de anotar os sonhos ou contar sonhos um ao outro ao acordar, todos os sonhos estranhos e (veremos mais adiante) as outras comunicações mentais que fizemos, telepatizando imagens juntos de olhos fechados, onde será demonstrado que todos os pensamentos se encontram no candelabro da eternidade – Jim – e no entanto gosto também do ritmo que há em para sonhar, para acordar, e me orgulho de ter uma namorada rítmica pelo menos, na minha escrivaninha-lar metafísica –

Você tem um rosto muito bonito e eu gosto de vê-lo
como estou vendo agora –

– ecos da frase daquela menina de Nova York e agora vindo da dócil humilde Mardou não tão difícil de acreditar e eu realmente comecei a ficar todo prosa e acreditar nisso (ó humilde papel com letras, ó a vez que eu sentado num tronco perto do aeroporto de Idlewild em Nova York vendo o helicóptero voando carregado de cartas e enquanto eu olhava eu via o sorriso de todos os anjos da terra que tinham escrito as cartas que ele carregava, os sorrisos deles, em particular de minha mãe, curvada sobre doce papel e caneta para se comunicar pelo correio com a filha, sorriso angelical como sorrisos de operários em fábricas, a beatitude universal e a coragem e a beleza da coisa, fatos que eu nem mereço reconhecer, depois do jeito como eu tratei Mardou) (ó perdoai-me anjos do céu e da terra – até mesmo Ross Wallenstein vai para o céu) –

Perdoe as conjunções e os pronomes mal colocados
e o não dito

– mais uma vez fico admirado e penso, ela também aqui, pela primeira vez lembrando-se que está escrevendo para um escritor –

Não sei direito o que eu queria dizer na verdade
mas quero que você receba umas palavras minhas
nessa manhã de quarta-feira

e o correio só a trouxe muito depois, depois de eu ver Mardou, a carta perdendo portanto o impacto esperado

Somos como dois animais fugindo para tocas
escuras e quentinhas e vivemos nossas dores sozinhos

– a essa altura minha fantasia boba sobre nós dois (depois que aqueles bêbados me fizeram ficar cheio da cidade cheio dos porres) era um barraco no meio das matas de Mississipi, Mardou comigo, que se danem os racistas linchadores, aí eu escrevo para ela em resposta: “Espero que com aquele trecho (animais em tocas escuras e quentinhas) você queira dizer que você vai acabar se revelando como a mulher que realmente é capaz de viver comigo na profunda solidão das matas finalmente e ao mesmo tempo conquistar as Parises cheias de luzes (pronto!) e envelhecer comigo na minha choupana em paz” (de repente me vendo como William Blake com sua esposa dócil no meio da manhã orvalhada londrina, Crabbe Robinson vem com mais um trabalho de gravura mas Blake está absorto na visão do Cordeiro na mesa cheia dos restos do café-da-manhã). – Ah lamentável Mardou, e nem uma vez um pensamento desses pulsa na tua cabeça, que eu devia beijar, a dor de teu próprio orgulho, chega de papos genéricos românticos do século dezenove – os detalhes são a vida da coisa – (o homem faz bobagem banca o bonzão mas isso não vale nada quando a coisa aperta – a moça vai dar a volta por cima, está oculto nos olhos dela o triunfo e a força futura – nos lábios dela só se ouve “está certo amor”). – As palavras finais dela, um lindo pastiche pastel de –

Me escreve qualquer coisa Por Favor Fique Bem
Tua Amiga Que Ti (erro de ortografia) Gosta E
meu amor E Ah (em cima de ilegíveis apagados
para sempre) (e uma fileira de X representando
beijos é claro)
E Amor para Você MARDOU (sublinhado)

E mais estranho, mais esquisito, importante de tudo – separadas com uma linha em volta as palavras POR FAVOR – última súplica dela sem que ela nem eu soubéssemos – Respondendo a essa carta com falsidade frouxa nascida da minha raiva por causa do incidente da carrocinha.
(E nesta noite em que escrevo essa carta é minha última esperança.)

Os Subterrâneos, Jack Kerouac.

Pra mais ninguém que ela, Little Honey Bee.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Uma puta ressaca, um revólver e uma aspirina

Johnny acordou num canto qualquer da cidade. Não fazia a mínima idéia de onde estava nem pra onde tinha que ir, tampouco se lembrava do que acontecera na noite anterior. Logo uma forte dor de cabeça o fez ficar deitado por alguns segundos. O corpo já mole e dolorido não ajudava nada a situação. Levantou-se do chão duro e gelado e logo o sol lhe estapeou os olhos, fazendo com que ele os fechasse imediatamente. Do bolso da calça ele retirou seus óculos escuros, companheiros inseparáveis de seu cotidiano. Ficou um tempo indagando o motivo de eles estarem lá e também o fato de não terem se quebrado. Era um belo exemplar falso de uma famosa marca americana. Bateu com a mão a sujeira pra fora de sua roupa, checou os bolsos e sentiu falta de sua carteira. Talvez alguém a tivesse roubado, ou talvez ele a tivesse perdido. Começou então a caminhada em busca de um destino, andando ainda meio bêbado pelas calçadas amontoadas de gente. Todas as pessoas o olhavam com certo desdém – ele fedia como um cachorro há meses sem banho e aparentava ser apenas mais um morador das imensas ruas da cidade mais suja do Brasil. Passou então por um homem que muito bem poderia ser seu companheiro, mendigo, sujo, maltrapilho. Ele lhe estendeu a mão e pediu alguma esmola. Johnny meteu a mão num dos bolsos e achou suas últimas moedas. Sem receio, as entregou para o pobre coitado, que retrucou com um singelo Deus lhe pague. Por um momento imaginou que talvez aquele homem fosse mais feliz que todos os engomadinhos que por ali passavam, um homem verdadeiramente livre, subordinado de ninguém e amante de todas as pequenas coisas da vida. Lembrou de quando acordou naquele chão e logo desistiu da idéia, com um sorriso que nenhum adjetivo além de canalha poderia descrever. Andou até um ponto de ônibus e esperou pacientemente o próximo deles passar, pensando que se reconhecesse algum dos ônibus, poderia voltar pra casa ou pra algum lugar próximo dela. Não gostava muito de pedir informações nas ruas. Sentia que todas as pessoas daquela cidade eram apressadas, arrogantes, estressadas. Não valiam sequer uma palavra. O mendigo que lhe pediu a esmola era mais humano e mais limpo que qualquer um daqueles. Ouviu um murmurinho e percebeu as pessoas que o olhavam por trás, lá do outro lado da rua, com expressões de susto e dedos estirados em sua direção. Passou as mãos por suas costas e descobriu um revólver na cintura. Novamente não tinha idéia de como aquilo foi parar ali. Entristeceu-se um pouco por não se lembrar da noite passada, e pensou que pudesse ter sido uma de suas melhores sextas-feiras. Pegou o objeto com uma das mãos, trouxe à frente do corpo e logo o derrubou no chão, assustado com o poder que aquilo o fazia sentir. As pessoas do ponto de ônibus correram pro comércio mais próximo. Ele podia ouvir alguém falar com a polícia no celular. Calmamente, pegou o revólver do chão, foi até a farmácia do outro lado da rua, e enquanto um homem corria pra uma viatura próxima, apontou-o na cabeça do atendente e disse: “Passa a aspirina aí, imbecil”. O atendente lhe entregou o remédio e quando ele ia pedir um copo d’água um policial o abordou da porta. “Ei, calma aí camarada, não vá fazer nenhuma besteira, fique parado!”, disse o policial. Ele olhou pro policial com aquele sorriso canalha, abaixou a arma e o policial entrou em ação. Pegou-o pelos braços e os manteve presos em suas costas enquanto o derrubava no chão. Bateu com a face no chão e soltou um leve gemido. Outro policial entrou. “O que ele tem?”, disse. “Uma puta ressaca, um revólver e uma aspirina”, respondeu Johnny.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Seres livres

Saí do banheiro. O cheiro lá dentro tava horrível, e é minha culpa. Alguém entrou depois de mim. Não sei bem quem. Nunca sei os nomes dessas pessoas que trabalham comigo. Elas são extremamente entediantes. Não sou de falar e, além disso, não consigo me socializar com quem fala muito sobre coisas nada interessantes. O homem que entrava no banheiro fazia uma careta enquanto me olhava com desgosto.

- O que ta olhando? Todos cagamos, e todos cagamos extremamente fedido - eu disse.

Ele demonstrou uma expressão de susto e eu esbocei um sorriso tímido. Andei pelo corredor e entrei na sala em que trabalho. Divido-a com mais três homens, um deles é meu chefe. Alto, careca, narigudo, irritante, arrogante. Ele acha que é muito mais que todos nós quando, na verdade, é bem menos que qualquer lixeiro. Um homem preso a uma vida desgostosa. Assim como eu.

- Entregou os relatórios que pedi? – ele disse.

- Sim, entreguei tudo como pedido – eu disse.

Eu não havia entregado nada. Eu nunca entrego nada. Nunca faço nada. Procrastino mais que qualquer ser humano. Meu chefe não gosta de mim. Ninguém aqui gosta, mas tudo bem. Eu também não gosto de ninguém. Alguém começou a tagalerar algo sobre o jogo de futebol da semana passada. Quando me perguntavam alguma coisa, eu respondia com um singelo e afirmativo “Hum”. Era como se todas as palavras que saíam de suas bocas estivessem saindo de um profundo buraco. As palavras ecoavam em minha mente enquanto eu os fitava. Não queria entender o que eles diziam. Não me acrescentaria em nada. Mas, afinal, nada nos acrescenta em nada. Acho que é por isso que eu não suporto mais essa vida estranha. Esse mundo estranho. Essas pessoas estranhas. É tudo muito estranho. Deveria ser mais normal, aconchegante, amigável. Sinto inveja das pessoas que conseguem ser normais. As que vão pro trabalho com um sorriso no rosto e mantém esse sorriso durante todo o dia. Que encontram prazer nas coisas mais massivas.

- Você ta me ouvindo?! – disse meu chefe.

- Sim, claro, sim – eu disse.

- E o que eu dizia? – ele disse.

- Falava sobre futebol, eu acho – eu disse.

- Não, falávamos sobre...

Nesse momento, tudo se fechou novamente e suas palavras voltaram a sair de um profundo buraco, cheias de eco. Seu rosto embaçara.

- Eu me demito – eu disse.

Seu rosto voltou a me ser nítido.

- Como?! – ele disse.

- ME DEMITO – gritei.

- Você não pode se demitir! – ele disse.

- Claro que posso. Nós temos total controle sobre nossas vidas, a todo o momento. Mesmo quando achamos que não temos escolha, temos. Eu achava que não tinha escolha. Ficaria preso a esse emprego por toda a minha vida por medo de não ter dinheiro no bolso. Dinheiro que se foda. Se eu vou passar fome, o problema é meu. – eu disse, e cuspi em seu nariz imenso – E que se fodam todos vocês. Que fodam um ao outro, pelo menos.

Fui até o banheiro pra cagar de novo. Dessa vez, esfregaria toda a minha merda nas paredes daquele prédio. Afinal, todos nós cagamos. E cagamos extremamente fedido.

domingo, 1 de maio de 2011

Morte na Rua Piratinins

Acordei de repente às três da manhã. Tinha ido me deitar por volta da meia-noite, mas só consegui adormecer por volta das duas. Não dormi nada. Faz muitos anos que não durmo nada. Levantei e fui até a pia da improvisada cozinha daquele apertado quarto de pensão na Rua Piratinins, num bairro sujo da cidade dos desesperados. Em baixo dela, peguei a garrafa de cachaça e um saquinho de suco de limão em pó. Misturei o pó com um pouco d’água e enchi o resto com cachaça. Tomei tudo de uma vez. É mais fácil assim. Me ajuda a dormir. Fui até a janela e olhei a rua pela única fresta que a cortina fazia. Lá fora as pessoas já haviam parado de passar. Só restavam os loucos, os sujos, os malvados, os deteriorados. Voltei até a pia da cozinha improvisada e me servi de mais um trago, mas dessa vez emendei um cigarro no final. Não existe nada como fumar um cigarro depois de virar um copo da cachaça mais forte da região. Dá uma sensação de alívio – quase como me sentia quando era criança e abraçava um de meus cachorros. É engraçado como a gente força o encontro com a nostalgia em qualquer detalhe da vida. Depois de quatro doses, me deitei com mais um cigarro aceso. O sono não aparecia. Ele nunca aparecia. Acho que todos aqueles meses com drogas pesadas na madrugada o deixaram triste e ele se foi pra sempre. Abri um livro em qualquer página e li qualquer parágrafo. Nada me interessava. Folheava tudo sem destino nem origem. Foi quando eu o ouvi pela primeira vez, do lado de fora. Era um som estridente e pausado. Parecia que ele estava dentro do quarto, mas eu sabia que não era o caso. Eu não abria a porta nem a janela já há alguns dias. O que me mantinha refrescado era o ventilador de teto, que girava num ritmo louco e frenético por semanas a fio. Levantei-me pra tomar mais um trago e percebi que a cachaça tinha acabado. O dinheiro no bolso só dava pra um sanduíche ou outra garrafa. Era comer ou me embebedar. Geralmente a segunda opção prevalecia. Decidi então que era hora de deitar de vez. Forçar o desligamento da mente. Fechei os olhos e tentei clarear os pensamentos. O barulho lá fora parecia ter ficado mais alto. Comecei a pensar no barulho. Imaginei que fosse um grilo ou qualquer inseto parecido. Pensei em como seria gratificante pisar nele. Fiquei alguns segundos sentado na cama, mexendo no cabelo, no rosto sujo e com a barba mal feita. Em seguida levantei e fui em direção da porta. Percebi que vestia apenas uma cueca e uma velha regata branca. A cueca estava furada. Não me importei – já me sentia um pouco bêbado. Abri a porta e me pus pro lado de fora. Não havia ninguém na rua. Na frente do quarto, um arbusto de plantas horríveis. Quase mortas. Fedidas. O barulho vinha de lá. Fucei um pouco nas plantas e o bicho saltou pro meio fio. Não existia água correndo lá. “Que merda”, pensei. “Poderia a água suja dos esgotos levar esse infeliz pra deixar outro pobre coitado acordado”. Avancei de uma vez pra cima dele. Era um grilo. Ele pulava alto. Foi pro meio da rua. Corri com voracidade e logo meti o pé em cima de seu frágil corpo. O som irritante parou num segundo. Tirei o pé e o vi lá, deitado, deformado, derrotado. Cheguei perto com o rosto e disse: “Te vejo no inferno”. Não se preocupem, é pra lá que vamos todos nós. Virei as costas e abri a porta do quarto sem olhar pra trás. Aos fundos, um fusca branco passou por cima do grilo. Acho incrível como encontro paz nas coisas pequenas. Como senti prazer em ouvir o barulho daquele ser insignificante se destruindo em baixo de meu pé. Juntei as moedas do bolso da calça jogada em qualquer canto, peguei um cigarro e saí de novo pra rua. Voltaria mais tarde com mais uma garrafa de cachaça e nenhum sono.

Chega

Vou tentar transformar esse blog em algo mais pessoal, mais direto, sem mistérios, sem frescuras. Acho que ninguém vai se interessar muito por ele. Mas, por outro lado, ninguém se interessa agora. Vou tentar ser sincero. Escrever o que me vem à mente. Alivia os sentidos e faz a gente ficar bem melhor conosco mesmo. Compartilhar parte de nossa vida com um bando de gente estranha. É difícil. Agora mesmo já contradizo minha vontade, excedo nas palavras quando deveria ser mais direto, como prometi no começo do texto. Que assim seja. O que eu quero é trocar o nome desse blog, falar sobre meus dias e meus pensamentos. Só pra botar tudo pra fora, mas em algum lugar. Um lugar que eu possa ver e analisar, um lugar em que eu possa compartilhar. Chega de nomes extravagantes e pré-moldados. Chega de pose. Chega de metralhar os ouvidos da alma com palavras arrogantes e depressivas, mascaradas, fingidas, adormecidas. "A vida foi feita pra ser vivida", já dizia meu sábio pai, emendando mais uma de suas grandes reflexões sobre ela mesma, a vida: "uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa".

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Pensamentos, #2

Eu falo pelas mães desesperadas – com tragédias ou apenas o dia-a-dia dos filhos –, eu falo pela sociedade incoerente em que vivemos, eu falo pelos laços infringentes que fazemos. Imperfeitos humanos em convivência com um mundo mais imperfeito que si. Vamos gritar, vamos violentar, vamos assassinar. E tudo faz parte do que conhecemos como vida. Somos obrigados a trair, fingir, esconder. Somos obrigados a assassinar, a roubar, a torturar. Somos nós mesmos traídos, somos nós mesmos assassinados. Tudo o que fazemos ao próximo, fazemos na verdade a nós mesmos. E se nós brigarmos durante uma manhã de um belo sol, se quebrarmos as barreiras do bem e do mal, se fizermos tudo pelo avesso, se nos destruirmos diante do ardor que é viver, tudo bem. Se o sol nascer no dia seguinte, estaremos lá pra assisti-lo.

"If I were a swan, I'd be gone
If I were a train, I'd be late
And if I were a good man,
I'd talk with you more often than I do
If I were to sleep, I could dream
If I were afraid, I could hide
If I go insane, please don't put
Your wires in my brain
If I were the moon, I'd be cool
If I were a rule, I would bend
If I were a good man, I'd understand
The spaces between friends
If I were alone, I would cry
And if I were with you, I'd be home and dry
And if I go insane,
Will you still let me join in the game?
If I were a swan, I'd be gone
If I were a train, I'd be late again
If I were a good man,
I'd talk with you more often than I do."

segunda-feira, 4 de abril de 2011

"Don't Let it Bring You Down", Neil Young

Let there be darkness

"I wish I could see everything
passing just before my eyes
Like a movie I've never seen
Like someone I've never been.

I wish I could do it all
of the things I never did
And instead of darkness
I wish I could be the light."

sábado, 2 de abril de 2011

Como nós o conhecemos

"Tive que me isolar pra aprender a viver sozinho. Pra aprender a não mais ser dependente de qualquer afeição demonstrada por outro ser. Tive que trancar a porta e as janelas do meu quarto sujo no canto da cidade pra que ninguém me encontrasse. e ninguém me encontrou. Bem como previ, fiquei completamente sozinho por sete longos meses. a barba e o cabelo já pareciam de algum mendigo qualquer da avenida paulista. Só o que me restava era o dinheiro que me deram quando larguei meu emprego. Quando larguei meu emprego pra me isolar. E, desse dinheiro, setenta por cento foi gasto em alteradores. Vodca, uísque, cerveja, cigarros, maconha, cocaína - tudo da pior qualidade possível, pra eu poder comprar mais e mais. E por sete meses, senti na pele o que é a falta de viver. De sair, de se encontrar, de namorar, de trabalhar e, principalmente, de estar sóbrio. E posso dizer - com todo o sentimento necessário e a involução envolvida - que nunca estive melhor. Não depender de ninguém emocionalmente, nunca. Essa era a minha meta inicial. E ela foi brilhantemente cumprida.

Assim como a loucura, a isolação vicia. As pessoas lá fora fazem do mundo um lugar horrível. Feio, fedido, incômodo, estranho, incorrigível. Único em todo seu horror. O fedor me dá náuseas. As pessoas também."

domingo, 27 de março de 2011

"Mozambique", Bob Dylan



"Lying next to her by the ocean
Reaching out and touching her hand,
Whispering your secret emotion
Magic in a magical land."

O fabuloso Senhor Morte

"E que longo e estranho caminho percorri, penso. Um longo e estranho caminho. Mas todos nós estamos fadados a um dia sucumbir, sumir aos poucos diante dos olhos dos amados e dos odiados. Tudo um dia acaba e até a felicidade se esvai. Não existe dor maior que a dor do ser, e essa todos sentimos, dia-a-dia, de baixo de nossa pele. Como pode, então, acreditarmos tanto nesse mundo de fantasias que criamos? Como podemos nós sermos tão egoístas e mesquinhos a ponto de imaginar que o mundo é perfeito como deveria ser? E como podemos então forçar esse mundo fantasiado ao mundo dos demais? Estamos sozinhos. E a cidade inteira está pegando fogo lá fora. E as pessoas gritam e falam e choram e matam e são mortas e beijam e fodem e bebem e se drogam. Nada importa tanto assim. E no final, não existe Deus pra tomar conta de nossos atos, pra ganhar crédito por nosso esforço e subitamente desaparecer de nossas vidas quando tudo começa a dar errado. E no final os poetas nada escrevem, só param e se deixam ser levados. E lá fora o mundo continua, com ou sem mim. No final nem o amor nos salvará. E ainda as pessoas não sabem o que é a realidade e o que é a fantasia, e suas mentes poderosas criam qualquer mundo narcisista e doente que elas querem que seja criado. E as ambulâncias continuam a gritar suas sirenes brilhantes, atravessando a noite em busca dos injuriados e dos finais, as crianças continuam a passar fome em algum lugar enquanto nós gordos e magníficos nos enchemos de cerveja e frango todos os domingos, e por aí e quem sabe nesse exato momento a vida inteira de uma criança é destruída pelos desejos doentes de um adulto doente, e os pais continuam a brigar e a beber como se o amanhã não fosse mais chegar. E ninguém ouve os gritos dos rejeitados e dos mal amados. E ninguém quer saber de ninguém, nem eu, no chão, sedento por um final breve e indolor. Tudo o que penso é em mim e nos meus mais ridículos motivos."

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Song for the gone

As I lay on this bed
the sun shines its sad light on me.
Memories of you in my head
sounds of laughing children in my ear.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Josué Padilla, Diário Azul, cinco e meia da manhã

"Sinto cheiro de cigarros apagados e copos vazios de pinga com limão. O cheiro não me faz lembrar nada. Escrevo pra me distrair de minhas próprias mágoas. Já não sinto mais como sentia antes. Aliás, de antes, quase nada faço. Mudei completamente todos os meus hábitos com o passar dos anos. Chego a encontrar uma certa estranheza nesse sentimento de nostalgia inversa, de culpa e decepção. Brigo com o sono. Ainda é muito cedo pra ir. Minhas crenças de infância todas morreram afogadas em suas próprias mentiras e facetas, meus princípios e bons costumes sucumbiram diante da assustadora realidade cruel em que vivemos todos os dias. Acho engraçado como as pessoas são felizes. Não deveria. Meu pai costumava dizer que felicidade não existe. De uma forma muito relativa e aleatória ele dizia que a felicidade é incoerente, se não apenas um conceito criado para nos fazer se mover adiante sempre que necessário. "A tal felicidade", como dizia. Penso que talvez ele esteja certo e isso me assusta. Então acendo mais um cigarro, olho pela persiana suja e quebrada e vejo as pessoas passando na rua, indo pro trabalho. Nenhuma delas sorri. Enfim, tenho algo em comum com a sociedade."

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