sexta-feira, 20 de maio de 2011

O pão nosso de cada dia

- Thank you! Isso significa “obrigado”, certo?

- Certo.

- Eu já sabia.

- Então por que perguntou?

- Pra ter certeza.

- Mas você já não tinha certeza?

- Acho que sim.

- Tudo bem, deixemos isso pra lá.

- Toma mais uma.

- Sim, tomo mais uma.

Enquanto virava mais uma dose de conhaque, Lui tentava se lembrar da última vez que foi abordado por um estranho tão irritante num bar tão fedido. O odor de uma privada entupida no banheiro se misturava com todo o excremento que vinha dos esgotos e se depositava no córrego que dividia a rua de frente para o bar, fazendo uma dança perigosa para o olfato de qualquer ser humano que pudesse sentir seu próprio cheiro. O bêbado desconhecido já mostrava sinais de estar perdendo um pouco a consciência – entrando naquela fase bêbada que poucos conseguem ultrapassar –, afogando-se em contradições intermináveis sobre Deus e seu melhor amigo, o diabo com letra minúscula – pois assim falava o bêbado –, tropeçando em seus próprios pés enquanto saía do local pra poder fumar.

- Essa tal nova lei aí que proíbe os bêbados de fumar dentro dos bares é um insulto! Ouviram? Um insulto...

Lui estava concentrado no balcão. Olhava para as falhas que faziam parte de toda obra, de toda arte, de toda vida. Por alguns instantes, não mais ouvia o bêbado irritante, mas logo seus ouvidos pararam de ouvir as palavras que saíam de dentro pra ouvir as de fora. Ele realmente não controlava assim tão bem o que queria ou não ouvir.

-... E digo mais! Os almofadinhas lá do senado deveriam é tudo ir tomar no cu, não tenho paciência pra esse bando de filho da puta...

O dono do bar olhava para Lui e sorria discretamente. Talvez quisesse mostrar ao seu cliente que aquele outro o entretinha. Lui não sorriu de volta. O dono do bar deixou que o sorriso morresse em questão de segundos e demonstrou-se completamente inconfortável com a situação. O bêbado terminou seu cigarro e foi em direção de Lui.

- Qual é o seu problema?

- Como?

- Quero saber qual é o seu problema.

- Não tenho problemas.

- Todos nós temos problemas.

- Você é um daqueles bêbados filósofos?

- Não.

- Até agora falava só asneira, tenho medo que continue a falar.

- Ora, não estamos aqui pra insultar uns aos outros, estamos?

- Acho que não.

- Então seja menos hostil.

- Tudo bem.

- Qual é o seu problema?

- Acho que é o passado.

- Tem um passado negro, é?

- Não, o contrário. Tenho um maravilhoso. Esse é o problema.

- Não entendo.

- Não consigo me desconectar dele. Vivo minha vida revivendo cada segundo de meu maravilhoso passado em minha mente.

- Existe uma palavra pra gente assim.

- Nostálgico?

- Não sei.

- Talvez seja isso. Nunca soube o significado exato dessa palavra. Sei que tem alguma coisa a ver com o passado.

- Ok, Senhor Nelstágico, vamos tomar mais uma.

- NOStálgico.

- Sim, Nelstágico. Fale-me mais de sua vida.

- Não entendo o motivo de tanto interesse. Não tenho uma vida tão interessante assim.

- Não tenho nada pra fazer e ninguém pra conversar.

- Somos dois.

- Temos um ao outro, então.

- Sim.

- Então fale mais de sua vida.

Lui já não aguentava mais tanto incômodo. Entre as frases, tentava respirar pela boca para evitar aquele odor horrível que agora se misturara com o cheiro de álcool que vinha da boca do bêbado. O rádio tocava alguma música regional dum lugar de onde Lui não tinha vindo. Isso o irritava. Ter que compartilhar com os cidadãos daquela cidadezinha todos os costumes de suas terras natais. Gostaria que tudo fosse mais simples, mais universal.

- Ainda to esperando você falar da sua vida.

- Oh, sim, perdoe-me, não tenho nada pra falar de minha vida.

- Claro que tem!

- Não. Nada de interessante. Nada que valha a pena ser dito.

- Tudo vale a pena ser dito.

- Nem tudo.

- Tudo! Ficar com algo te atormentando a cabeça é pior que dizer e lidar com a rejeição.

- Você parou de falar asneiras.

- Sou um bêbado de classe.

- Falou como um de meus mestres.

- Que?

- Charl...

O dono do bar o interrompeu com mais uma dose de conhaque para Lui e uma de cachaça para o bêbado irritante. Lá fora alguém pisava na folhagem seca que o outono tirou das árvores mais belas, provocando um calmo e aconchegante som, que lembrava Lui de sua distante infância, uma felicidade que nunca na vida sentira igual, um amor que nunca na vida tinham lhe dado igual. E ele continuava no bar, sentado, tomando seu conhaque e conversando com um bêbado irritante. Talvez a vida fosse simples assim, talvez não precisasse Lui complicar tudo pra encontrar sentido no insensato, história no papel em branco, amor nos braços estranhos de outro alguém. Ou talvez ele fosse, simplesmente, nada ambicioso. Afinal, sabia ele que ser ou não campeão de vida não cabe ao que melhor ataca, mas ao que melhor aguenta.

Cartas para Kerouac (de Mardou)

AMOR,

Como é bom saber que o inverno está
chegando –

porque a gente vivia reclamando do calor e agora o calor estava acabando, vinha um frescor no ar, dava para sentir na correnteza cinzenta da Heavenly Lane e na aparência do céu e noites com um tremeluzir mais forte nos postes de luz –

– e que a vida vai ser um pouco mais tranqüila –
e você vai ficar em casa escrevendo e comendo bem
e nós vamos passar noites agradáveis abraçadinhos
– e você está em casa agora, descansando e comendo
bem porque você não devia ficar muito triste –

escrita depois que, uma noite, no Mask com ela e o recém-chegado meu futuro inimigo Yuri meu ex-irmãozinho eu falei de repente “sinto uma tristeza impossível como se eu fosse morrer, o que que a gente faz?” e Yuri sugeriu “Liga pro Sam”, o que, na minha tristeza, eu fiz, e com tanta sinceridade, porque senão ele não ia prestar atenção em mim sendo ele jornalista e o filho dele acabara de nascer e não tinha tempo para bobagens, mas tanta sinceridade que ele nos aceitou, os três, que fôssemos imediatamente, dali do Mask, para seu apartamento em Russian Hill, onde fomos, eu cada vez mais bêbado, Sam como sempre me dando socos e dizendo “Teu problema, Percepied”, e “Você tem uns sacos podres no fundo do teu depósito”, e “No fundo vocês, canadenses de fala francesa, são todos iguais e eu nem acredito que você vai admitir que morreu quando morrer” – Mardou olhando para ele, achando graça, bebendo um pouco, Sam finalmente, como sempre, caindo de porre, mas não exatamente, desejando o porre, em cima de uma mesinha baixa completamente coberta de cinzeiros transbordantes e copos e cacarecos, plof, a mulher dele, com bebê saído do berço, suspirando – Yuri, que não bebias só olhava de olhos brilhantes, depois de ter me dito no dia em que chegou, “Sabe Percepied eu realmente gosto de você agora, eu estou realmente a fim de me comunicar com você agora”, o que devia ter me botado desconfiado de que nele aquilo era um novo interesse sinistro nas minhas atividades, a saber, Mardou –

– porque você não devia ficar muito triste

foi o único comentário doce que a frágil Mardou fez sobre aquela noite terrível desastrosa – semelhante ao exemplo nº 2, depois do lance de Lavalina, a noite do lindo rapaz fauno que havia dormido com Micky dois anos antes num glorioso festanal que eu mesmo tinha organizado quando vivia com Micky a grande musa da noite lendária louca, vendo-o no Mask, e estando com Frank Carmody e todo mundo, puxando a camisa dele, insistindo para que ele fosse conosco para outros bares, atrás da gente, Mardou finalmente na noite embaçada ensurdecedora berrando comigo “Ou eu ou ele porra”, mas não a sério no fundo (ela que normalmente não bebia já que era uma subterrânea mas agora por causa da transa com Percepied bebendo muito) – ela foi embora, ouvi-a dizer “Terminamos” mas nem por um segundo acreditei, como de fato ela voltou depois, nos abraçamos e cambaleamos juntos, mais uma vez eu tinha me comportado mal e mais uma vez ridiculamente que nem um veado, o que me preocupava de novo ao acordar no cinzento da Heavenly Lane na manhã ao rugir da cerveja. – Isto é a confissão de um homem que não sabe beber. – E a carta dela dizendo:

porque você não devia ficar muito triste – e eu me
sinto melhor quando você está bem –

perdoando, esquecendo todas essas loucuras patéticas quando ela quer, “Não quero viver saindo para beber e tomando porre com todos os teus amigos e indo sempre ao Dante’s e encontrar com os Juliens todos e todo mundo de novo, quero que a gente fique em casa quietinhos, ouvindo rádio e lendo ou sei lá, ou então assistir a um show, eu adoro ir a show amor, pegar um cinema na Market Street, ah como eu gosto.” – “Mas eu detesto cinema, a vida é mais interessante!” (mais um comentário arrasante) – sua doce carta continuando:

Estou sentindo tantas sensações estranhas,
revivendo e reformulando muitas coisas velhas

– quando ela tinha catorze ou treze anos por aí ela matava aula fugia de Oakland e pegava a barca para São Francisco ia para a Market Street e passava o dia todo dentro do cinema, andando de um lado para outro tendo fantasias alucinatórias, olhando para todos aqueles olhos, a pretinha perambulando pela rua inquieta incessante de bêbados, marginais, policiais, jornaleiros, a confusão louca a multidão encarando olhando tudo multidão de tarados e tudo aquilo na chuva cinzenta dos dias de aula matada – pobre Mardou – “Eu tinha as fantasias sexuais mais estranhas não com atos sexuais com pessoas mas situações estranhas que eu passava o dia inteiro elaborando enquanto eu andava, e os orgasmos os poucos que eu tinha pintavam sem mais nem menos, porque eu nunca me masturbei nem sabia como, quando eu sonhava que papai ou alguém estava me abandonando, fugindo de mim, eu acordava com umas convulsões estranhas, molhada, nas coxas, e na Market Street eu era a mesma coisa só que diferente e pesadelos tirados dos filmes que eu via.” – Eu pensando Ó Américalouca de telacinzenta gângster coquetel diadechuva tiro bum imortalidade espectral de filme B pilha de pneus escuro-na-névoa mas que mundo maluco! – “Amor” (em voz alta) “quem dera te ver andando assim pela Market – mas garanto que eu te vi sim – você tinha treze anos e eu 22 – 1944, sim garanto que te vi, eu era marinheiro, eu estava sempre por lá, eu conhecia as turminhas daqueles bares –“ Assim ela dizendo na carta:

revivendo e reformulando muitas coisas velhas

provavelmente revivendo aqueles tempos aquelas fantasias, e antes os horrores grotescos da casa em Oakland onde a tia histericamente batia nela ou histericamente tentava e as irmãs (apesar das eventuais carícias de irmãzinha como beijinhos de praxe antes de ir deitar e escrever uma nas costas da outra) fazendo gato-sapato dela, e as caminhadas sem rumo pelas ruas tarde da noite, imersa em meditações macambúzias, os homens escuros de portas escuras de bairros de negros – e assim continuando,

e sentindo o frio e a tranqüilidade mesmo no meio
de meus medos e presságios – que as noites limpas
acalmam e tornam mais nítidos e reais – palpáveis
e fáceis de enfrentar

– dizendo isso com um ritmo bonito também, e aí eu lembrava de admirar a inteligência dela – mas ao mesmo tempo escurecendo em casa lá na minha escrivaninha de bem-estar e pensando. “Mas enfrentar, esses velhos papos psicanalíticos de enfrentar, ela fala como todos eles, os intelectuais urbanos decadentes beco-sem-saída em análise de causa-e-efeito e solução de pretensos problemas em vez da imensa ALEGRIA de ser e vontade e coragem – fissurados em fossa – esse é o problema dela, ela é igualzinha a Adam, e Julien, e todos eles, com medo da loucura, o medo da loucura atormenta a vida dela – mas Eu Não Eu Não meu Deus” –

Mas por que eu estou escrevendo para dizer essas
coisas a você. Mas todos os sentimentos são verdadeiros
e você provavelmente capta ou sente também
o que estou dizendo e por que eu preciso escrever
isso tudo –

– um sentimento de mistério e encantamento – mas, como eu dizia a ela sempre, falta o detalhe, os detalhes são a vida, eu insisto, diz tudo que passa na tua cabeça, não segura nada, não analisa nem nada ao mesmo tempo, é só dizer, “Isso” (digo agora ao ler a carta) “é um exemplo típico – mas deixa pra lá, afinal ela é mulher né –“

A imagem que eu tenho de você agora é estranha

– vejo o ramo dessa frase balançando na árvore –

Sinto uma distância de você que talvez você sinta
também que me dá uma imagem de você que é
doce e amiga

e aí acrescenta, com letra menor,

(e amorosa)

para obviar minha depressão provavelmente por receber carta de amante só com palavra “amiga” – mas todo esse trecho tornado ainda mais complicado por aparecer embaixo de emendas, sendo a versão corrigida, que naturalmente é menos interessante para mim, a seguinte:

Sinto uma distância de você que talvez você sinta
também com imagens de você que são doces e amigas
(e amorosas)
– e por causa das ansiedades que sentimos mas
nunca mencionamos, e que também são parecidas –

o que me faz de repente por obra e graça da força da palavra dela sentir pena de mim mesmo, me vendo a mim mesmo como ela perdido no mar ignorante sofrido da vida humana me sentindo distante dela que devia estar tão próxima de mim e sem saber (não não mesmo) por que a distância é que é o sentimento, nós dois entrelaçados e perdidos nisso, como se submersos no mar –

vou dormir para sonhar, para acordar

– lembrando nossa história de anotar os sonhos ou contar sonhos um ao outro ao acordar, todos os sonhos estranhos e (veremos mais adiante) as outras comunicações mentais que fizemos, telepatizando imagens juntos de olhos fechados, onde será demonstrado que todos os pensamentos se encontram no candelabro da eternidade – Jim – e no entanto gosto também do ritmo que há em para sonhar, para acordar, e me orgulho de ter uma namorada rítmica pelo menos, na minha escrivaninha-lar metafísica –

Você tem um rosto muito bonito e eu gosto de vê-lo
como estou vendo agora –

– ecos da frase daquela menina de Nova York e agora vindo da dócil humilde Mardou não tão difícil de acreditar e eu realmente comecei a ficar todo prosa e acreditar nisso (ó humilde papel com letras, ó a vez que eu sentado num tronco perto do aeroporto de Idlewild em Nova York vendo o helicóptero voando carregado de cartas e enquanto eu olhava eu via o sorriso de todos os anjos da terra que tinham escrito as cartas que ele carregava, os sorrisos deles, em particular de minha mãe, curvada sobre doce papel e caneta para se comunicar pelo correio com a filha, sorriso angelical como sorrisos de operários em fábricas, a beatitude universal e a coragem e a beleza da coisa, fatos que eu nem mereço reconhecer, depois do jeito como eu tratei Mardou) (ó perdoai-me anjos do céu e da terra – até mesmo Ross Wallenstein vai para o céu) –

Perdoe as conjunções e os pronomes mal colocados
e o não dito

– mais uma vez fico admirado e penso, ela também aqui, pela primeira vez lembrando-se que está escrevendo para um escritor –

Não sei direito o que eu queria dizer na verdade
mas quero que você receba umas palavras minhas
nessa manhã de quarta-feira

e o correio só a trouxe muito depois, depois de eu ver Mardou, a carta perdendo portanto o impacto esperado

Somos como dois animais fugindo para tocas
escuras e quentinhas e vivemos nossas dores sozinhos

– a essa altura minha fantasia boba sobre nós dois (depois que aqueles bêbados me fizeram ficar cheio da cidade cheio dos porres) era um barraco no meio das matas de Mississipi, Mardou comigo, que se danem os racistas linchadores, aí eu escrevo para ela em resposta: “Espero que com aquele trecho (animais em tocas escuras e quentinhas) você queira dizer que você vai acabar se revelando como a mulher que realmente é capaz de viver comigo na profunda solidão das matas finalmente e ao mesmo tempo conquistar as Parises cheias de luzes (pronto!) e envelhecer comigo na minha choupana em paz” (de repente me vendo como William Blake com sua esposa dócil no meio da manhã orvalhada londrina, Crabbe Robinson vem com mais um trabalho de gravura mas Blake está absorto na visão do Cordeiro na mesa cheia dos restos do café-da-manhã). – Ah lamentável Mardou, e nem uma vez um pensamento desses pulsa na tua cabeça, que eu devia beijar, a dor de teu próprio orgulho, chega de papos genéricos românticos do século dezenove – os detalhes são a vida da coisa – (o homem faz bobagem banca o bonzão mas isso não vale nada quando a coisa aperta – a moça vai dar a volta por cima, está oculto nos olhos dela o triunfo e a força futura – nos lábios dela só se ouve “está certo amor”). – As palavras finais dela, um lindo pastiche pastel de –

Me escreve qualquer coisa Por Favor Fique Bem
Tua Amiga Que Ti (erro de ortografia) Gosta E
meu amor E Ah (em cima de ilegíveis apagados
para sempre) (e uma fileira de X representando
beijos é claro)
E Amor para Você MARDOU (sublinhado)

E mais estranho, mais esquisito, importante de tudo – separadas com uma linha em volta as palavras POR FAVOR – última súplica dela sem que ela nem eu soubéssemos – Respondendo a essa carta com falsidade frouxa nascida da minha raiva por causa do incidente da carrocinha.
(E nesta noite em que escrevo essa carta é minha última esperança.)

Os Subterrâneos, Jack Kerouac.

Pra mais ninguém que ela, Little Honey Bee.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Uma puta ressaca, um revólver e uma aspirina

Johnny acordou num canto qualquer da cidade. Não fazia a mínima idéia de onde estava nem pra onde tinha que ir, tampouco se lembrava do que acontecera na noite anterior. Logo uma forte dor de cabeça o fez ficar deitado por alguns segundos. O corpo já mole e dolorido não ajudava nada a situação. Levantou-se do chão duro e gelado e logo o sol lhe estapeou os olhos, fazendo com que ele os fechasse imediatamente. Do bolso da calça ele retirou seus óculos escuros, companheiros inseparáveis de seu cotidiano. Ficou um tempo indagando o motivo de eles estarem lá e também o fato de não terem se quebrado. Era um belo exemplar falso de uma famosa marca americana. Bateu com a mão a sujeira pra fora de sua roupa, checou os bolsos e sentiu falta de sua carteira. Talvez alguém a tivesse roubado, ou talvez ele a tivesse perdido. Começou então a caminhada em busca de um destino, andando ainda meio bêbado pelas calçadas amontoadas de gente. Todas as pessoas o olhavam com certo desdém – ele fedia como um cachorro há meses sem banho e aparentava ser apenas mais um morador das imensas ruas da cidade mais suja do Brasil. Passou então por um homem que muito bem poderia ser seu companheiro, mendigo, sujo, maltrapilho. Ele lhe estendeu a mão e pediu alguma esmola. Johnny meteu a mão num dos bolsos e achou suas últimas moedas. Sem receio, as entregou para o pobre coitado, que retrucou com um singelo Deus lhe pague. Por um momento imaginou que talvez aquele homem fosse mais feliz que todos os engomadinhos que por ali passavam, um homem verdadeiramente livre, subordinado de ninguém e amante de todas as pequenas coisas da vida. Lembrou de quando acordou naquele chão e logo desistiu da idéia, com um sorriso que nenhum adjetivo além de canalha poderia descrever. Andou até um ponto de ônibus e esperou pacientemente o próximo deles passar, pensando que se reconhecesse algum dos ônibus, poderia voltar pra casa ou pra algum lugar próximo dela. Não gostava muito de pedir informações nas ruas. Sentia que todas as pessoas daquela cidade eram apressadas, arrogantes, estressadas. Não valiam sequer uma palavra. O mendigo que lhe pediu a esmola era mais humano e mais limpo que qualquer um daqueles. Ouviu um murmurinho e percebeu as pessoas que o olhavam por trás, lá do outro lado da rua, com expressões de susto e dedos estirados em sua direção. Passou as mãos por suas costas e descobriu um revólver na cintura. Novamente não tinha idéia de como aquilo foi parar ali. Entristeceu-se um pouco por não se lembrar da noite passada, e pensou que pudesse ter sido uma de suas melhores sextas-feiras. Pegou o objeto com uma das mãos, trouxe à frente do corpo e logo o derrubou no chão, assustado com o poder que aquilo o fazia sentir. As pessoas do ponto de ônibus correram pro comércio mais próximo. Ele podia ouvir alguém falar com a polícia no celular. Calmamente, pegou o revólver do chão, foi até a farmácia do outro lado da rua, e enquanto um homem corria pra uma viatura próxima, apontou-o na cabeça do atendente e disse: “Passa a aspirina aí, imbecil”. O atendente lhe entregou o remédio e quando ele ia pedir um copo d’água um policial o abordou da porta. “Ei, calma aí camarada, não vá fazer nenhuma besteira, fique parado!”, disse o policial. Ele olhou pro policial com aquele sorriso canalha, abaixou a arma e o policial entrou em ação. Pegou-o pelos braços e os manteve presos em suas costas enquanto o derrubava no chão. Bateu com a face no chão e soltou um leve gemido. Outro policial entrou. “O que ele tem?”, disse. “Uma puta ressaca, um revólver e uma aspirina”, respondeu Johnny.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Seres livres

Saí do banheiro. O cheiro lá dentro tava horrível, e é minha culpa. Alguém entrou depois de mim. Não sei bem quem. Nunca sei os nomes dessas pessoas que trabalham comigo. Elas são extremamente entediantes. Não sou de falar e, além disso, não consigo me socializar com quem fala muito sobre coisas nada interessantes. O homem que entrava no banheiro fazia uma careta enquanto me olhava com desgosto.

- O que ta olhando? Todos cagamos, e todos cagamos extremamente fedido - eu disse.

Ele demonstrou uma expressão de susto e eu esbocei um sorriso tímido. Andei pelo corredor e entrei na sala em que trabalho. Divido-a com mais três homens, um deles é meu chefe. Alto, careca, narigudo, irritante, arrogante. Ele acha que é muito mais que todos nós quando, na verdade, é bem menos que qualquer lixeiro. Um homem preso a uma vida desgostosa. Assim como eu.

- Entregou os relatórios que pedi? – ele disse.

- Sim, entreguei tudo como pedido – eu disse.

Eu não havia entregado nada. Eu nunca entrego nada. Nunca faço nada. Procrastino mais que qualquer ser humano. Meu chefe não gosta de mim. Ninguém aqui gosta, mas tudo bem. Eu também não gosto de ninguém. Alguém começou a tagalerar algo sobre o jogo de futebol da semana passada. Quando me perguntavam alguma coisa, eu respondia com um singelo e afirmativo “Hum”. Era como se todas as palavras que saíam de suas bocas estivessem saindo de um profundo buraco. As palavras ecoavam em minha mente enquanto eu os fitava. Não queria entender o que eles diziam. Não me acrescentaria em nada. Mas, afinal, nada nos acrescenta em nada. Acho que é por isso que eu não suporto mais essa vida estranha. Esse mundo estranho. Essas pessoas estranhas. É tudo muito estranho. Deveria ser mais normal, aconchegante, amigável. Sinto inveja das pessoas que conseguem ser normais. As que vão pro trabalho com um sorriso no rosto e mantém esse sorriso durante todo o dia. Que encontram prazer nas coisas mais massivas.

- Você ta me ouvindo?! – disse meu chefe.

- Sim, claro, sim – eu disse.

- E o que eu dizia? – ele disse.

- Falava sobre futebol, eu acho – eu disse.

- Não, falávamos sobre...

Nesse momento, tudo se fechou novamente e suas palavras voltaram a sair de um profundo buraco, cheias de eco. Seu rosto embaçara.

- Eu me demito – eu disse.

Seu rosto voltou a me ser nítido.

- Como?! – ele disse.

- ME DEMITO – gritei.

- Você não pode se demitir! – ele disse.

- Claro que posso. Nós temos total controle sobre nossas vidas, a todo o momento. Mesmo quando achamos que não temos escolha, temos. Eu achava que não tinha escolha. Ficaria preso a esse emprego por toda a minha vida por medo de não ter dinheiro no bolso. Dinheiro que se foda. Se eu vou passar fome, o problema é meu. – eu disse, e cuspi em seu nariz imenso – E que se fodam todos vocês. Que fodam um ao outro, pelo menos.

Fui até o banheiro pra cagar de novo. Dessa vez, esfregaria toda a minha merda nas paredes daquele prédio. Afinal, todos nós cagamos. E cagamos extremamente fedido.

domingo, 1 de maio de 2011

Morte na Rua Piratinins

Acordei de repente às três da manhã. Tinha ido me deitar por volta da meia-noite, mas só consegui adormecer por volta das duas. Não dormi nada. Faz muitos anos que não durmo nada. Levantei e fui até a pia da improvisada cozinha daquele apertado quarto de pensão na Rua Piratinins, num bairro sujo da cidade dos desesperados. Em baixo dela, peguei a garrafa de cachaça e um saquinho de suco de limão em pó. Misturei o pó com um pouco d’água e enchi o resto com cachaça. Tomei tudo de uma vez. É mais fácil assim. Me ajuda a dormir. Fui até a janela e olhei a rua pela única fresta que a cortina fazia. Lá fora as pessoas já haviam parado de passar. Só restavam os loucos, os sujos, os malvados, os deteriorados. Voltei até a pia da cozinha improvisada e me servi de mais um trago, mas dessa vez emendei um cigarro no final. Não existe nada como fumar um cigarro depois de virar um copo da cachaça mais forte da região. Dá uma sensação de alívio – quase como me sentia quando era criança e abraçava um de meus cachorros. É engraçado como a gente força o encontro com a nostalgia em qualquer detalhe da vida. Depois de quatro doses, me deitei com mais um cigarro aceso. O sono não aparecia. Ele nunca aparecia. Acho que todos aqueles meses com drogas pesadas na madrugada o deixaram triste e ele se foi pra sempre. Abri um livro em qualquer página e li qualquer parágrafo. Nada me interessava. Folheava tudo sem destino nem origem. Foi quando eu o ouvi pela primeira vez, do lado de fora. Era um som estridente e pausado. Parecia que ele estava dentro do quarto, mas eu sabia que não era o caso. Eu não abria a porta nem a janela já há alguns dias. O que me mantinha refrescado era o ventilador de teto, que girava num ritmo louco e frenético por semanas a fio. Levantei-me pra tomar mais um trago e percebi que a cachaça tinha acabado. O dinheiro no bolso só dava pra um sanduíche ou outra garrafa. Era comer ou me embebedar. Geralmente a segunda opção prevalecia. Decidi então que era hora de deitar de vez. Forçar o desligamento da mente. Fechei os olhos e tentei clarear os pensamentos. O barulho lá fora parecia ter ficado mais alto. Comecei a pensar no barulho. Imaginei que fosse um grilo ou qualquer inseto parecido. Pensei em como seria gratificante pisar nele. Fiquei alguns segundos sentado na cama, mexendo no cabelo, no rosto sujo e com a barba mal feita. Em seguida levantei e fui em direção da porta. Percebi que vestia apenas uma cueca e uma velha regata branca. A cueca estava furada. Não me importei – já me sentia um pouco bêbado. Abri a porta e me pus pro lado de fora. Não havia ninguém na rua. Na frente do quarto, um arbusto de plantas horríveis. Quase mortas. Fedidas. O barulho vinha de lá. Fucei um pouco nas plantas e o bicho saltou pro meio fio. Não existia água correndo lá. “Que merda”, pensei. “Poderia a água suja dos esgotos levar esse infeliz pra deixar outro pobre coitado acordado”. Avancei de uma vez pra cima dele. Era um grilo. Ele pulava alto. Foi pro meio da rua. Corri com voracidade e logo meti o pé em cima de seu frágil corpo. O som irritante parou num segundo. Tirei o pé e o vi lá, deitado, deformado, derrotado. Cheguei perto com o rosto e disse: “Te vejo no inferno”. Não se preocupem, é pra lá que vamos todos nós. Virei as costas e abri a porta do quarto sem olhar pra trás. Aos fundos, um fusca branco passou por cima do grilo. Acho incrível como encontro paz nas coisas pequenas. Como senti prazer em ouvir o barulho daquele ser insignificante se destruindo em baixo de meu pé. Juntei as moedas do bolso da calça jogada em qualquer canto, peguei um cigarro e saí de novo pra rua. Voltaria mais tarde com mais uma garrafa de cachaça e nenhum sono.

Chega

Vou tentar transformar esse blog em algo mais pessoal, mais direto, sem mistérios, sem frescuras. Acho que ninguém vai se interessar muito por ele. Mas, por outro lado, ninguém se interessa agora. Vou tentar ser sincero. Escrever o que me vem à mente. Alivia os sentidos e faz a gente ficar bem melhor conosco mesmo. Compartilhar parte de nossa vida com um bando de gente estranha. É difícil. Agora mesmo já contradizo minha vontade, excedo nas palavras quando deveria ser mais direto, como prometi no começo do texto. Que assim seja. O que eu quero é trocar o nome desse blog, falar sobre meus dias e meus pensamentos. Só pra botar tudo pra fora, mas em algum lugar. Um lugar que eu possa ver e analisar, um lugar em que eu possa compartilhar. Chega de nomes extravagantes e pré-moldados. Chega de pose. Chega de metralhar os ouvidos da alma com palavras arrogantes e depressivas, mascaradas, fingidas, adormecidas. "A vida foi feita pra ser vivida", já dizia meu sábio pai, emendando mais uma de suas grandes reflexões sobre ela mesma, a vida: "uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa".

Seguidores


Contador Grátis