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sábado, 25 de junho de 2011
Copos de cerveja e acordes com sétima
terça-feira, 14 de junho de 2011
Quebrando Josué
De longe ele viu o homem agachado num canto qualquer da calçada, entre uma cafeteria e um restaurante de fast-food, com as calças arriadas e uma expressão de desconforto no rosto. Parou por um instante e teve nojo de se aproximar. Atravessou para o outro lado da rua e continuou a caminhar. O relógio marcava algumas horas da madrugada. Ele retirou de dentro do casaco um recipiente de metal para armazenar bebidas alcoólicas e deu duas fortes goladas, seguidas do acendimento de um cigarro. Parou por mais um momento e pensou novamente no caminho a ser tomado. Atravessou a rua de volta para o lado do homem agachado e começou a ir em sua direção. Parou em frente ao homem e alinhou seu rosto com o dele.
- Você não pode cagar aqui.
- Quem disse que não? Isso aqui é público.
- Por isso mesmo você não pode cagar aí.
- Mas se é público, eu posso fazer o que eu quiser com ele, me pertence, pois eu sou o público.
- Eu também sou o público e eu digo que você não pode cagar aí.
- Foda-se!
Então ele chutou um dos joelhos do homem agachado, que agora se tornara homem deitado – deitado em sua própria merda. Continuou caminhando pelo mesmo lado da rua enquanto, no fundo, o homem deitado gritava palavras que sua mãe o dizia pra nunca usar. Tomou mais um gole e deu mais umas tragadas no cigarro. Passou pela frente de uma loja que estava sendo assaltada, um bar onde ocorria uma briga com facas e uns barracos onde adolescentes vendiam drogas e finalmente encontrou a porta de seu prédio. Um prédio quase abandonado há anos pelo proprietário, que só ia até lá para receber o aluguel barato dos inquilinos mais escrotos de toda a cidade. Eram como baratas. Alguns deles rastejavam pelos corredores atrás de uma seringa, um cachimbo, uma nota de real ou qualquer coisa que servisse como canudo.
Abriu a porta de seu apartamento, sentou-se na mesa em frente à janela, serviu-se de mais um gole daquela bebida e umas tragadas no cigarro. Colocou o cigarro no cinzeiro já cheio. O cigarro fez acender uma bituca do dia anterior. O passado até que pode ser revisitado, pensou.
segunda-feira, 13 de junho de 2011
Mentiras
- Como vai o cuzinho, amor?
Já tava perto de amanhecer e eu não tinha o direito de chamá-la de amor. Mas desde o começo da noite anterior ela assim me chamou, então resolvi retribuir o favor. Percebi a falsidade irritante em seu olhar e em suas palavras já nos primeiros minutos de conversa, num sofá ao lado de um cano de aço que se prendia do chão ao teto. Uma música de festa tocava em um volume alto e incômodo do outro lado do salão. Ela não era assim tão bonita. Eu não era assim tão humano.
- Arde um pouco, amor, arde um pouco. Acho que vou tomar um banho.
E foi. Entrou no banheiro e deixou a porta meio aberta. Talvez quisesse minha presença debaixo daquela água quentinha que quebrava as piores dores do inverno, mas meu corpo já havia desistido há tempos. Eu não tinha forças nem pra acender o cigarro que, em minha boca, esperava ansiosamente cumprir o sentido de sua existência. Enquanto eu a esperava sair do banheiro, fitava o canto das paredes daquele quarto de motel. Eram brancas como a neve que nunca vi. Em poucos minutos ela saiu do banheiro e se deitou ao meu lado.
- Sabe, amorzinho, você é tão bonito. Queria que você fosse meu namorado.
Eu sabia que as palavras que saíam de sua boca eram direcionadas à meu dinheiro, mas algo me fazia pensar o contrário. Não sei se eram os raios de luz que o sol lançava por entre as cortinas, aquecendo nossas sofridas pernas geladas, a noite de sexo intenso e juras passageiras de amor ou a obviedade de seu sofrimento.
- Você não fala muito, né? Queria que você falasse mais.
Ela queria demais. Talvez fosse esse o grande problema de sua vida. Talvez por isso ela tinha que trepar com tanto estranho por aí. Talvez. De longe se percebia que ela vendia uma imagem falsa de si mesma, desesperadamente tentando esconder do mundo sua fraqueza e sofrimento, escondendo-se atrás de garrafas de rum barato, juras falsas, lágrimas reais e cocaína de má qualidade, esperando sempre um anjo sem asas que lhe curasse as feridas.
Os raios de sol já cobriam metade da cama e o rádio estava desligado. Abraçamo-nos embaixo das cobertas, ela completamente nua e cheirosa e eu de cuecas e fedido, e naquele momento o amor não podia ser descrito nem desafiado – ele existia e estava sendo praticado. Fica fácil perceber o que é amor depois de passar tantos anos sendo parceiro único do ódio.
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