segunda-feira, 13 de junho de 2011

Mentiras

- Como vai o cuzinho, amor?

Já tava perto de amanhecer e eu não tinha o direito de chamá-la de amor. Mas desde o começo da noite anterior ela assim me chamou, então resolvi retribuir o favor. Percebi a falsidade irritante em seu olhar e em suas palavras já nos primeiros minutos de conversa, num sofá ao lado de um cano de aço que se prendia do chão ao teto. Uma música de festa tocava em um volume alto e incômodo do outro lado do salão. Ela não era assim tão bonita. Eu não era assim tão humano.

- Arde um pouco, amor, arde um pouco. Acho que vou tomar um banho.

E foi. Entrou no banheiro e deixou a porta meio aberta. Talvez quisesse minha presença debaixo daquela água quentinha que quebrava as piores dores do inverno, mas meu corpo já havia desistido há tempos. Eu não tinha forças nem pra acender o cigarro que, em minha boca, esperava ansiosamente cumprir o sentido de sua existência. Enquanto eu a esperava sair do banheiro, fitava o canto das paredes daquele quarto de motel. Eram brancas como a neve que nunca vi. Em poucos minutos ela saiu do banheiro e se deitou ao meu lado.

- Sabe, amorzinho, você é tão bonito. Queria que você fosse meu namorado.

Eu sabia que as palavras que saíam de sua boca eram direcionadas à meu dinheiro, mas algo me fazia pensar o contrário. Não sei se eram os raios de luz que o sol lançava por entre as cortinas, aquecendo nossas sofridas pernas geladas, a noite de sexo intenso e juras passageiras de amor ou a obviedade de seu sofrimento.

- Você não fala muito, né? Queria que você falasse mais.

Ela queria demais. Talvez fosse esse o grande problema de sua vida. Talvez por isso ela tinha que trepar com tanto estranho por aí. Talvez. De longe se percebia que ela vendia uma imagem falsa de si mesma, desesperadamente tentando esconder do mundo sua fraqueza e sofrimento, escondendo-se atrás de garrafas de rum barato, juras falsas, lágrimas reais e cocaína de má qualidade, esperando sempre um anjo sem asas que lhe curasse as feridas.

Os raios de sol já cobriam metade da cama e o rádio estava desligado. Abraçamo-nos embaixo das cobertas, ela completamente nua e cheirosa e eu de cuecas e fedido, e naquele momento o amor não podia ser descrito nem desafiado – ele existia e estava sendo praticado. Fica fácil perceber o que é amor depois de passar tantos anos sendo parceiro único do ódio.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Seguidores


Contador Grátis