quarta-feira, 16 de novembro de 2011

O homem de chapéu social preto

O homem de chapéu social preto dirigia pelas ruas chuvosas naquela noite de verão. A cidade parecia menos suja que no restante dos dias, como se a chuva pudesse limpar a cidade. Não da sujeira que o ser humano produz, como o lixo, mas do ser humano em si, em forma de lixo. Era assim que o homem de chapéu social preto via o resto do mundo. Não que ele se achasse melhor ou pior que alguém, nem tão diferente, ele só não gostava de ninguém, nem de si mesmo. Sabia que as pessoas eram escrotas e, por ser uma pessoa, pensava isso de si mesmo. Mas enquanto olhava para os comércios fechados e os cruzamentos desertos, ele pensava nela. Não entendia como poderia amar cultivando tanto ódio dentro de si, não entendia como poderia ao menos ser digno de algo tão gracioso e grandioso, mas reconhecia que essa era sua realidade. Parou o carro velho e barulhento perto de um estabelecimento que se mantinha fortemente aberto naquele feriado chuvoso. As pessoas haviam viajado. Parecia que ninguém estava na cidade. Reconheceu que o estabelecimento era um pequeno bar, mais sujo que o interior de seu carro. Sentou-se no balcão e não falou nada. O homem que estava do outro lado do balcão assistindo a televisão se levantou e foi em sua direção.

- O que vai ser hoje, campeão?

- Campeão?

- É só uma expressão, sabe, um jeito de se chamar quem não se conhece.

- Não entendo o motivo de apelidarmos quem não conhecemos. Não pode simplesmente perguntar meu nome?

- Ok, e qual é o seu nome?

- Eu não vou falar meu nome.

- Então o que vai ser, campeão?

O homem de chapéu social preto olhou profundamente nos olhos do homem que tentava servi-lo. E por alguns segundos o homem sentiu como se a eternidade tivesse tomado conta da ilusão que ele conhecia como tempo. É nessas horas que você duvida de tudo o que lhe parece óbvio.

- Um copo d’água por enquanto, campeão.

O copo cheio de água da torneira foi colocado, então, sobre o balcão.

- Você vai querer que eu consuma algo pra poder ficar aqui, não?

- Não. Veja, todos foram viajar por causa do feriado, inclusive minha família. Estou sozinho, posso aproveitar um pouco de companhia.

- E por qual motivo você não foi viajar com sua família?

- Preciso pagar o aluguel.

- E eu preciso pagar o imposto dessa lata velha.

- Eu deveria ter ido, sabe. Hoje eu fiz míseros vinte reais, vendendo doses de pinga barata pros trabalhadores que precisaram ficar na cidade. Eles ganham menos que eu.

- Todos ganham menos que todos.

- Não é bem assim, algumas pessoas são mais bem sucedidas que outras.

- Ser bem sucedido não significa necessariamente ganhar.

- E o que seria ganhar pra você?

- Talvez apagar minha memória.

- Algo te incomoda, campeão?

- Esse chapéu me incomoda.

E assim, o homem de chapéu social preto se tornou apenas o homem. O homem no balcão de um bar tomando água da torneira por não ter dinheiro pra tomar qualquer outra coisa. Viu-se pensando nela, novamente, e não entendia por que ela não podia simplesmente sumir.

- Me desculpe, campeão, mas não vou poder ser sua companhia pra essa noite. Tenho lugares pra estar.

- Tudo bem, eu vou ficar bem. Tenho minha televisão.

O homem saiu para a rua sem dizer mais nenhuma palavra. Entrou em seu carro velho e sumiu na noite chuvosa. A chuva piorara, as gotas caíam com uma força nunca vista antes pelo homem atrás do balcão. Reluziam a luz da solidão.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Seguidores


Contador Grátis