quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

O lado selvagem

Dizem que são loucos os que tem dupla personalidade, mas todos somos dois. Alguns chegam a ser até três ou quatro. Nossa vida é uma constante luta contra nós mesmos. E o meu segundo eu - ou primeiro? - é louco. Selvagem. Quer sair, fugir, gritar, se embebedar, ter experiências que ninguém nunca teve. O outro fica só de canto, observando, enquanto o louco toma conta e faz o que bem entender.

Mas não é sempre assim. O outro me mantém aqui, com os pés no chão e a cabeça no lugar. Me faz acreditar que se eu for correto um dia posso alcançar o que tanto busco. Me faz acreditar que se eu tirar esses pés do chão, posso voar pra muito longe e nunca mais voltar. E eu acredito nele. Pois não conheço o outro lado da vida. E, as vezes, é muito arriscado se deixar levar por seu lado selvagem e bruto. Pode acabar num lugar ruim. Talvez ruim seja uma palavra fraca demais pra descrever tal lugar. Talvez a palavra que descreva com perfeição nem exista ainda.

A luta fica cada dia mais difícil. Dia a dia, mês a mês, ano a ano. E regularmente o lado selvagem vence e faz o que bem entende. Sai pelas ruas bebendo o que pode. Certa vez fiquei extremamente bêbado no meio duma tarde de quarta-feira. Fui à praia e mergulhei com todas as forças numa água gelada e salgada. Do mar olhei as pessoas na praia, pequenas, insignificantes, e lembrei quando meu irmão disse que a vida lhe fez sentido naquele mesmo lugar, olhando aquelas mesmas pessoas.

Mas pra mim não fez tanto sentido assim. São só pessoas, é só o mar, é só uma sensação. As vezes, as coisas são mais simples do que parecem ser. E complicar tudo é dificultar tudo. Então eu voltei pra casa e vomitei meu lado selvagem na privada.

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