- Thank you! Isso significa “obrigado”, certo?
- Certo.
- Eu já sabia.
- Então por que perguntou?
- Pra ter certeza.
- Mas você já não tinha certeza?
- Acho que sim.
- Tudo bem, deixemos isso pra lá.
- Toma mais uma.
- Sim, tomo mais uma.
Enquanto virava mais uma dose de conhaque, Lui tentava se lembrar da última vez que foi abordado por um estranho tão irritante num bar tão fedido. O odor de uma privada entupida no banheiro se misturava com todo o excremento que vinha dos esgotos e se depositava no córrego que dividia a rua de frente para o bar, fazendo uma dança perigosa para o olfato de qualquer ser humano que pudesse sentir seu próprio cheiro. O bêbado desconhecido já mostrava sinais de estar perdendo um pouco a consciência – entrando naquela fase bêbada que poucos conseguem ultrapassar –, afogando-se em contradições intermináveis sobre Deus e seu melhor amigo, o diabo com letra minúscula – pois assim falava o bêbado –, tropeçando em seus próprios pés enquanto saía do local pra poder fumar.
- Essa tal nova lei aí que proíbe os bêbados de fumar dentro dos bares é um insulto! Ouviram? Um insulto...
Lui estava concentrado no balcão. Olhava para as falhas que faziam parte de toda obra, de toda arte, de toda vida. Por alguns instantes, não mais ouvia o bêbado irritante, mas logo seus ouvidos pararam de ouvir as palavras que saíam de dentro pra ouvir as de fora. Ele realmente não controlava assim tão bem o que queria ou não ouvir.
-... E digo mais! Os almofadinhas lá do senado deveriam é tudo ir tomar no cu, não tenho paciência pra esse bando de filho da puta...
O dono do bar olhava para Lui e sorria discretamente. Talvez quisesse mostrar ao seu cliente que aquele outro o entretinha. Lui não sorriu de volta. O dono do bar deixou que o sorriso morresse em questão de segundos e demonstrou-se completamente inconfortável com a situação. O bêbado terminou seu cigarro e foi em direção de Lui.
- Qual é o seu problema?
- Como?
- Quero saber qual é o seu problema.
- Não tenho problemas.
- Todos nós temos problemas.
- Você é um daqueles bêbados filósofos?
- Não.
- Até agora falava só asneira, tenho medo que continue a falar.
- Ora, não estamos aqui pra insultar uns aos outros, estamos?
- Acho que não.
- Então seja menos hostil.
- Tudo bem.
- Qual é o seu problema?
- Acho que é o passado.
- Tem um passado negro, é?
- Não, o contrário. Tenho um maravilhoso. Esse é o problema.
- Não entendo.
- Não consigo me desconectar dele. Vivo minha vida revivendo cada segundo de meu maravilhoso passado em minha mente.
- Existe uma palavra pra gente assim.
- Nostálgico?
- Não sei.
- Talvez seja isso. Nunca soube o significado exato dessa palavra. Sei que tem alguma coisa a ver com o passado.
- Ok, Senhor Nelstágico, vamos tomar mais uma.
- NOStálgico.
- Sim, Nelstágico. Fale-me mais de sua vida.
- Não entendo o motivo de tanto interesse. Não tenho uma vida tão interessante assim.
- Não tenho nada pra fazer e ninguém pra conversar.
- Somos dois.
- Temos um ao outro, então.
- Sim.
- Então fale mais de sua vida.
Lui já não aguentava mais tanto incômodo. Entre as frases, tentava respirar pela boca para evitar aquele odor horrível que agora se misturara com o cheiro de álcool que vinha da boca do bêbado. O rádio tocava alguma música regional dum lugar de onde Lui não tinha vindo. Isso o irritava. Ter que compartilhar com os cidadãos daquela cidadezinha todos os costumes de suas terras natais. Gostaria que tudo fosse mais simples, mais universal.
- Ainda to esperando você falar da sua vida.
- Oh, sim, perdoe-me, não tenho nada pra falar de minha vida.
- Claro que tem!
- Não. Nada de interessante. Nada que valha a pena ser dito.
- Tudo vale a pena ser dito.
- Nem tudo.
- Tudo! Ficar com algo te atormentando a cabeça é pior que dizer e lidar com a rejeição.
- Você parou de falar asneiras.
- Sou um bêbado de classe.
- Falou como um de meus mestres.
- Que?
- Charl...
O dono do bar o interrompeu com mais uma dose de conhaque para Lui e uma de cachaça para o bêbado irritante. Lá fora alguém pisava na folhagem seca que o outono tirou das árvores mais belas, provocando um calmo e aconchegante som, que lembrava Lui de sua distante infância, uma felicidade que nunca na vida sentira igual, um amor que nunca na vida tinham lhe dado igual. E ele continuava no bar, sentado, tomando seu conhaque e conversando com um bêbado irritante. Talvez a vida fosse simples assim, talvez não precisasse Lui complicar tudo pra encontrar sentido no insensato, história no papel em branco, amor nos braços estranhos de outro alguém. Ou talvez ele fosse, simplesmente, nada ambicioso. Afinal, sabia ele que ser ou não campeão de vida não cabe ao que melhor ataca, mas ao que melhor aguenta.
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