De longe ele viu o homem agachado num canto qualquer da calçada, entre uma cafeteria e um restaurante de fast-food, com as calças arriadas e uma expressão de desconforto no rosto. Parou por um instante e teve nojo de se aproximar. Atravessou para o outro lado da rua e continuou a caminhar. O relógio marcava algumas horas da madrugada. Ele retirou de dentro do casaco um recipiente de metal para armazenar bebidas alcoólicas e deu duas fortes goladas, seguidas do acendimento de um cigarro. Parou por mais um momento e pensou novamente no caminho a ser tomado. Atravessou a rua de volta para o lado do homem agachado e começou a ir em sua direção. Parou em frente ao homem e alinhou seu rosto com o dele.
- Você não pode cagar aqui.
- Quem disse que não? Isso aqui é público.
- Por isso mesmo você não pode cagar aí.
- Mas se é público, eu posso fazer o que eu quiser com ele, me pertence, pois eu sou o público.
- Eu também sou o público e eu digo que você não pode cagar aí.
- Foda-se!
Então ele chutou um dos joelhos do homem agachado, que agora se tornara homem deitado – deitado em sua própria merda. Continuou caminhando pelo mesmo lado da rua enquanto, no fundo, o homem deitado gritava palavras que sua mãe o dizia pra nunca usar. Tomou mais um gole e deu mais umas tragadas no cigarro. Passou pela frente de uma loja que estava sendo assaltada, um bar onde ocorria uma briga com facas e uns barracos onde adolescentes vendiam drogas e finalmente encontrou a porta de seu prédio. Um prédio quase abandonado há anos pelo proprietário, que só ia até lá para receber o aluguel barato dos inquilinos mais escrotos de toda a cidade. Eram como baratas. Alguns deles rastejavam pelos corredores atrás de uma seringa, um cachimbo, uma nota de real ou qualquer coisa que servisse como canudo.
Abriu a porta de seu apartamento, sentou-se na mesa em frente à janela, serviu-se de mais um gole daquela bebida e umas tragadas no cigarro. Colocou o cigarro no cinzeiro já cheio. O cigarro fez acender uma bituca do dia anterior. O passado até que pode ser revisitado, pensou.
Do caralho!
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