Acordei de repente às três da manhã. Tinha ido me deitar por volta da meia-noite, mas só consegui adormecer por volta das duas. Não dormi nada. Faz muitos anos que não durmo nada. Levantei e fui até a pia da improvisada cozinha daquele apertado quarto de pensão na Rua Piratinins, num bairro sujo da cidade dos desesperados. Em baixo dela, peguei a garrafa de cachaça e um saquinho de suco de limão em pó. Misturei o pó com um pouco d’água e enchi o resto com cachaça. Tomei tudo de uma vez. É mais fácil assim. Me ajuda a dormir. Fui até a janela e olhei a rua pela única fresta que a cortina fazia. Lá fora as pessoas já haviam parado de passar. Só restavam os loucos, os sujos, os malvados, os deteriorados. Voltei até a pia da cozinha improvisada e me servi de mais um trago, mas dessa vez emendei um cigarro no final. Não existe nada como fumar um cigarro depois de virar um copo da cachaça mais forte da região. Dá uma sensação de alívio – quase como me sentia quando era criança e abraçava um de meus cachorros. É engraçado como a gente força o encontro com a nostalgia em qualquer detalhe da vida. Depois de quatro doses, me deitei com mais um cigarro aceso. O sono não aparecia. Ele nunca aparecia. Acho que todos aqueles meses com drogas pesadas na madrugada o deixaram triste e ele se foi pra sempre. Abri um livro em qualquer página e li qualquer parágrafo. Nada me interessava. Folheava tudo sem destino nem origem. Foi quando eu o ouvi pela primeira vez, do lado de fora. Era um som estridente e pausado. Parecia que ele estava dentro do quarto, mas eu sabia que não era o caso. Eu não abria a porta nem a janela já há alguns dias. O que me mantinha refrescado era o ventilador de teto, que girava num ritmo louco e frenético por semanas a fio. Levantei-me pra tomar mais um trago e percebi que a cachaça tinha acabado. O dinheiro no bolso só dava pra um sanduíche ou outra garrafa. Era comer ou me embebedar. Geralmente a segunda opção prevalecia. Decidi então que era hora de deitar de vez. Forçar o desligamento da mente. Fechei os olhos e tentei clarear os pensamentos. O barulho lá fora parecia ter ficado mais alto. Comecei a pensar no barulho. Imaginei que fosse um grilo ou qualquer inseto parecido. Pensei em como seria gratificante pisar nele. Fiquei alguns segundos sentado na cama, mexendo no cabelo, no rosto sujo e com a barba mal feita. Em seguida levantei e fui em direção da porta. Percebi que vestia apenas uma cueca e uma velha regata branca. A cueca estava furada. Não me importei – já me sentia um pouco bêbado. Abri a porta e me pus pro lado de fora. Não havia ninguém na rua. Na frente do quarto, um arbusto de plantas horríveis. Quase mortas. Fedidas. O barulho vinha de lá. Fucei um pouco nas plantas e o bicho saltou pro meio fio. Não existia água correndo lá. “Que merda”, pensei. “Poderia a água suja dos esgotos levar esse infeliz pra deixar outro pobre coitado acordado”. Avancei de uma vez pra cima dele. Era um grilo. Ele pulava alto. Foi pro meio da rua. Corri com voracidade e logo meti o pé em cima de seu frágil corpo. O som irritante parou num segundo. Tirei o pé e o vi lá, deitado, deformado, derrotado. Cheguei perto com o rosto e disse: “Te vejo no inferno”. Não se preocupem, é pra lá que vamos todos nós. Virei as costas e abri a porta do quarto sem olhar pra trás. Aos fundos, um fusca branco passou por cima do grilo. Acho incrível como encontro paz nas coisas pequenas. Como senti prazer em ouvir o barulho daquele ser insignificante se destruindo em baixo de meu pé. Juntei as moedas do bolso da calça jogada em qualquer canto, peguei um cigarro e saí de novo pra rua. Voltaria mais tarde com mais uma garrafa de cachaça e nenhum sono.
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