terça-feira, 10 de maio de 2011

Uma puta ressaca, um revólver e uma aspirina

Johnny acordou num canto qualquer da cidade. Não fazia a mínima idéia de onde estava nem pra onde tinha que ir, tampouco se lembrava do que acontecera na noite anterior. Logo uma forte dor de cabeça o fez ficar deitado por alguns segundos. O corpo já mole e dolorido não ajudava nada a situação. Levantou-se do chão duro e gelado e logo o sol lhe estapeou os olhos, fazendo com que ele os fechasse imediatamente. Do bolso da calça ele retirou seus óculos escuros, companheiros inseparáveis de seu cotidiano. Ficou um tempo indagando o motivo de eles estarem lá e também o fato de não terem se quebrado. Era um belo exemplar falso de uma famosa marca americana. Bateu com a mão a sujeira pra fora de sua roupa, checou os bolsos e sentiu falta de sua carteira. Talvez alguém a tivesse roubado, ou talvez ele a tivesse perdido. Começou então a caminhada em busca de um destino, andando ainda meio bêbado pelas calçadas amontoadas de gente. Todas as pessoas o olhavam com certo desdém – ele fedia como um cachorro há meses sem banho e aparentava ser apenas mais um morador das imensas ruas da cidade mais suja do Brasil. Passou então por um homem que muito bem poderia ser seu companheiro, mendigo, sujo, maltrapilho. Ele lhe estendeu a mão e pediu alguma esmola. Johnny meteu a mão num dos bolsos e achou suas últimas moedas. Sem receio, as entregou para o pobre coitado, que retrucou com um singelo Deus lhe pague. Por um momento imaginou que talvez aquele homem fosse mais feliz que todos os engomadinhos que por ali passavam, um homem verdadeiramente livre, subordinado de ninguém e amante de todas as pequenas coisas da vida. Lembrou de quando acordou naquele chão e logo desistiu da idéia, com um sorriso que nenhum adjetivo além de canalha poderia descrever. Andou até um ponto de ônibus e esperou pacientemente o próximo deles passar, pensando que se reconhecesse algum dos ônibus, poderia voltar pra casa ou pra algum lugar próximo dela. Não gostava muito de pedir informações nas ruas. Sentia que todas as pessoas daquela cidade eram apressadas, arrogantes, estressadas. Não valiam sequer uma palavra. O mendigo que lhe pediu a esmola era mais humano e mais limpo que qualquer um daqueles. Ouviu um murmurinho e percebeu as pessoas que o olhavam por trás, lá do outro lado da rua, com expressões de susto e dedos estirados em sua direção. Passou as mãos por suas costas e descobriu um revólver na cintura. Novamente não tinha idéia de como aquilo foi parar ali. Entristeceu-se um pouco por não se lembrar da noite passada, e pensou que pudesse ter sido uma de suas melhores sextas-feiras. Pegou o objeto com uma das mãos, trouxe à frente do corpo e logo o derrubou no chão, assustado com o poder que aquilo o fazia sentir. As pessoas do ponto de ônibus correram pro comércio mais próximo. Ele podia ouvir alguém falar com a polícia no celular. Calmamente, pegou o revólver do chão, foi até a farmácia do outro lado da rua, e enquanto um homem corria pra uma viatura próxima, apontou-o na cabeça do atendente e disse: “Passa a aspirina aí, imbecil”. O atendente lhe entregou o remédio e quando ele ia pedir um copo d’água um policial o abordou da porta. “Ei, calma aí camarada, não vá fazer nenhuma besteira, fique parado!”, disse o policial. Ele olhou pro policial com aquele sorriso canalha, abaixou a arma e o policial entrou em ação. Pegou-o pelos braços e os manteve presos em suas costas enquanto o derrubava no chão. Bateu com a face no chão e soltou um leve gemido. Outro policial entrou. “O que ele tem?”, disse. “Uma puta ressaca, um revólver e uma aspirina”, respondeu Johnny.

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