sexta-feira, 6 de maio de 2011

Seres livres

Saí do banheiro. O cheiro lá dentro tava horrível, e é minha culpa. Alguém entrou depois de mim. Não sei bem quem. Nunca sei os nomes dessas pessoas que trabalham comigo. Elas são extremamente entediantes. Não sou de falar e, além disso, não consigo me socializar com quem fala muito sobre coisas nada interessantes. O homem que entrava no banheiro fazia uma careta enquanto me olhava com desgosto.

- O que ta olhando? Todos cagamos, e todos cagamos extremamente fedido - eu disse.

Ele demonstrou uma expressão de susto e eu esbocei um sorriso tímido. Andei pelo corredor e entrei na sala em que trabalho. Divido-a com mais três homens, um deles é meu chefe. Alto, careca, narigudo, irritante, arrogante. Ele acha que é muito mais que todos nós quando, na verdade, é bem menos que qualquer lixeiro. Um homem preso a uma vida desgostosa. Assim como eu.

- Entregou os relatórios que pedi? – ele disse.

- Sim, entreguei tudo como pedido – eu disse.

Eu não havia entregado nada. Eu nunca entrego nada. Nunca faço nada. Procrastino mais que qualquer ser humano. Meu chefe não gosta de mim. Ninguém aqui gosta, mas tudo bem. Eu também não gosto de ninguém. Alguém começou a tagalerar algo sobre o jogo de futebol da semana passada. Quando me perguntavam alguma coisa, eu respondia com um singelo e afirmativo “Hum”. Era como se todas as palavras que saíam de suas bocas estivessem saindo de um profundo buraco. As palavras ecoavam em minha mente enquanto eu os fitava. Não queria entender o que eles diziam. Não me acrescentaria em nada. Mas, afinal, nada nos acrescenta em nada. Acho que é por isso que eu não suporto mais essa vida estranha. Esse mundo estranho. Essas pessoas estranhas. É tudo muito estranho. Deveria ser mais normal, aconchegante, amigável. Sinto inveja das pessoas que conseguem ser normais. As que vão pro trabalho com um sorriso no rosto e mantém esse sorriso durante todo o dia. Que encontram prazer nas coisas mais massivas.

- Você ta me ouvindo?! – disse meu chefe.

- Sim, claro, sim – eu disse.

- E o que eu dizia? – ele disse.

- Falava sobre futebol, eu acho – eu disse.

- Não, falávamos sobre...

Nesse momento, tudo se fechou novamente e suas palavras voltaram a sair de um profundo buraco, cheias de eco. Seu rosto embaçara.

- Eu me demito – eu disse.

Seu rosto voltou a me ser nítido.

- Como?! – ele disse.

- ME DEMITO – gritei.

- Você não pode se demitir! – ele disse.

- Claro que posso. Nós temos total controle sobre nossas vidas, a todo o momento. Mesmo quando achamos que não temos escolha, temos. Eu achava que não tinha escolha. Ficaria preso a esse emprego por toda a minha vida por medo de não ter dinheiro no bolso. Dinheiro que se foda. Se eu vou passar fome, o problema é meu. – eu disse, e cuspi em seu nariz imenso – E que se fodam todos vocês. Que fodam um ao outro, pelo menos.

Fui até o banheiro pra cagar de novo. Dessa vez, esfregaria toda a minha merda nas paredes daquele prédio. Afinal, todos nós cagamos. E cagamos extremamente fedido.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Seguidores


Contador Grátis